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Vítimas contam como acontecia “golpe” na imobiliária Ruiz

Alguns rebicos dos depósitos e pagamentos em espécie

 

A imobiliária Ruiz, que fechou as portas na metade do ano após decretar falência, está sendo investigada por estelionato pela Polícia Civil de Araucária. De acordo com a delegacia local, muitas vítimas registraram boletim de ocorrência relatando o mesmo tipo de “golpe”, fato que gerou o inquérito policial.

De acordo com a delegacia e também com algumas vítimas, a falcatrua se dava da seguinte forma: um cliente interessado em determinado imóvel para venda devia depositar, ou entregar em dinheiro, certo valor como sinal de negócio à dona da empresa, E. R, ou a uma das funcionárias, K. S., que, supostamente era corretora de imóveis, mas não tinha registro profissional, o Creci. O valor era solicitado porque, de acordo com elas, havia outras pessoas também interessadas no mesmo imóvel. A justificativa do sinal de negócio era para garantir que a casa ou apartamento ficaria com o cliente em questão. Nos dias seguintes, elas despistavam os clientes, alegando ter tido problemas com a documentação no banco, entre outras justificativas.

Uma das vítimas contou que estava procurando, junto à sua esposa, um imóvel há algum tempo. Em fevereiro deste ano, ele encontrou no Facebook uma casa a venda, enviou mensagem à vendedora, que logo prestou explicações, como de quanto tinha que ser a renda, qual o valor das parcelas, entre outras informações. “Aquele determinado imóvel se encaixou no meu orçamento, era uma casa no bairro Porto das Laranjeiras”, contou, acrescentando que o processo inicial do negócio foi muito fácil e rápido.

No dia seguinte após a conversa com a suposta corretora, a vítima realizou um depósito de 5 mil reais para garantir que a venda da casa não seria para outra pessoa. “Ela nos deu recibo do pagamento, mas, na imobiliária, achei estranho porque ela falava deste depósito em voz baixa. Na hora eu não me liguei, porque nunca iria achar que estaria caindo em um golpe”, relatou.

Na sequência, o homem foi informado de que teria que fazer um segundo depósito, sendo metade do valor da entrada para a imobiliária no dia da vistoria do imóvel. “Depositamos mais R$ 7.500,00, sendo que ela nos dizia que o engenheiro tinha ido até a casa vistoriar o local. Depois disso, para a documentação ela nos pediu mais R$ 2.800,00, que também depositamos”, afirmou.

Segundo ele, a vendedora dizia que, no máximo em um mês, a vítima e a família estariam com as chaves da casa na mão e ainda estaria mandando mensagens dizendo estar empolgada para fazer a entrega. Porém, os dias foram passando e a imobiliária não entregava o imóvel. “Falei que queria desfazer o negócio e queria meu dinheiro de volta. Foi neste momento que a tal corretora começou a nos enrolar ainda mais, não atendia mais os telefonemas e quando atendia dava desculpa que estava em outro compromisso”, declarou a vítima.

Quando ele decidiu voltar até a imobiliária para tentar resolver a questão, a empresa já estava fechada. “Eu ligava para a corretora, que me mandava ligar para a dona da Ruiz. Quando eu ligava para a dona, ela dizia que como eu tinha fechado contrato com a corretora tinha que resolver com ela”, comentou.

Depois que a empresa fechou as portas, a vítima não conseguiu mais contato com as duas mulheres e disse que até hoje não recebeu seu dinheiro de volta, ficando no prejuízo em mais de R$ 15 mil. “Elas passaram o contato do advogado, mas quando eu liguei ele dizia que não tinha conhecimento da causa”, informou.

Outra vítima contou que se interessou por um apartamento próximo ao terminal da Vila Angélica. “Nos falavam que se não déssemos a entrada para segurar o apartamento, a chave seria passada para outros clientes. Então pagamos R$ 1.500,00 em dinheiro e recebemos recibo disso”, disse. De acordo com ela, a mulher que estaria mexendo com a documentação dizia que iria resolver com o banco e em breve daria retorno.

“Uma semana depois que fizemos o depósito, fomos atrás da imobiliária que ficava no bairro Porto das Laranjeiras, mas fomos informados que a empresa havia se mudado para o centro, próximo à Prefeitura. Chegando lá, soubemos por outros funcionários que a imobiliária tinha falido”, relatou a vítima.

Ela conseguiu fazer contato com a dona da empresa, que teria pedido número da conta bancária para realizar o depósito. Mas, até hoje o dinheiro não apareceu. “Nunca passei por nada assim, entre em desespero quando aconteceu. Foi um valor que eu e meu marido não podíamos dar, passamos o mês com dinheiro contado. Tudo pensando em construir o nosso sonho para no fim das contas a proprietária sumir com parte de nossas economias. Inclusive, soubemos que ela estava com carro novo, então, na verdade, sabemos onde está esse dinheiro que demos como sinal de negócio”, finalizou.

Outro casal passou pela mesma situação e ficou no prejuízo em mil reais. “Eu e meu marido estávamos procurando um apartamento e nos interessamos por um localizado no bairro Thomaz Coelho, com uma condição muito boa, sendo entrada de 7 mil reais parcelada. Fomos até o condomínio, adoramos o lugar. Foi quando a corretora pediu os mil reais para segurar a unidade, já que havia outros interessados. Mas ela queria que pagássemos os 7 mil até a entrega das chaves, porém achamos melhor esperar para pagar quando estivéssemos com a chave na mão”, contou a vítima.

De acordo com ela, em contato com o banco, foram informados que a entrada do referido imóvel era de, na verdade, R$ 19 mil. “Para tirar a história a limpo, entramos em contato com a corretora que ainda pediu nossa moto como entrada, que hoje vale cerca de R$ 10.500,00. Logicamente não demos o veículo, pois desconfiamos de tudo aquilo”, disse.

Com isso, a vítima pediu o dinheiro de volta e a corretora e a proprietária da imobiliária teriam dito que precisavam de um tempo para pagar, pois naquele momento não tinham mais o dinheiro. “Ficamos bem frustrados, estava tudo pronto para a mudança, pois elas garantiram que teríamos o apartamento em maio”, afirmou.

Esta vítima declarou que acabou conseguindo comprar o apartamento direto com a construtora, mas que ficou no prejuízo do valor da entrada entregue à imobiliária Ruiz. “Elas nunca mais nos responderam, nem atendem nossas ligações. Menos mal que foram mil reais, poderíamos ter levado um calote muito maior”, concluiu.

O QUE DISSE UM FUNCIONÁRIO

Um dos funcionários, que trabalhou na imobiliária por alguns meses pouco antes da falência da empresa, contou o que via acontecer e como agiam as supostas estelionatárias.

“Quando entrei na imobiliária não sabia de nada, apenas tinham me alertado para não pedir sinal de negócio. Logo na primeira venda que realizei, a cliente entregou mil reais em dinheiro, conforme solicitado pela dona. Entretanto, a proprietária da empresa e a outra corretora falavam que precisavam de R$ 10 mil para o negócio, valor referente à documentação”, comentou. Sobre este imóvel, o funcionário da imobiliária disse que entrou em contato com o construtor e foi informado de que o apartamento já havia sido vendido.

Questionando a situação com a proprietária da empresa, que, em tese estaria resolvendo a parte burocrática do negócio, a mesma teria dito para “arrumar outro imóvel para o cliente”. “Mas o cliente não quis e, até onde sei, os mil reais entregues não foram devolvidos. Acredito que ela gastou esse dinheiro”, indicou.

Este funcionário contou que não tinha registro profissional, mas ainda assim atuava como corretor na imobiliária, assim como tantos outros que também não tinham o Creci. “Não era exigido o registro. Tanto que vários outros funcionários eram admitidos e a dona não se importava se era ou não corretor registrado”, contou, confirmando que K. S., que supostamente atuava nos possíveis golpes com E.R., também não tinha o Creci.

Ainda, de acordo com o funcionário, as duas mulheres faziam as “falcatruas”, mas quem acabava respondendo frente aos clientes eram os demais funcionários. “Pedi a conta porque estava sendo ameaçado de morte por cliente. A dona, inclusive, foi ameaçada também por uma pessoa que, ao que sabemos, era envolvida com o tráfico de drogas em Curitiba. Entretanto, para este cliente específico, soubemos que ela devolveu os R$ 15 mil de entrada”, ressaltou.

A maioria dos negócios que este funcionário soube que aconteceu na imobiliária aconteciam desta forma. “Talvez por medo de encontrar algum cliente na loja, quando elas chegavam à imobiliária ficavam poucos minutos na empresa e já voltavam para dentro do carro. De lá, falavam conosco pela janela e logo iam embora”, relatou.

A fim de ouvir a versão das duas mulheres citadas pelas vítimas e pelo funcionário da Ruiz, a reportagem do jornal O Popular novamente tentou contato elas, mas não obteve êxito nas tentativas.

Foto: divulgação

Publicado na edição 1130 – 13/09/18

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