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As areias do rio Iguaçu

Joaquim Batista de Lima e João Martins fazendo extração manual de areia do rio Iguaçu, 1972. Acervo do Arquivo Histórico Archelau de Almeida Torres

 

Boa porção do município de Araucária que circunda o rio Iguaçu é composta por cavas de extração de areia, que formam lagos artificiais muito utilizados por quem gosta de pescar. Quem vê os maquinários pesados trabalhando pode nem imaginar que até poucas décadas atrás a areia utilizada para aterramentos e construção civil em Araucária era retirada manualmente do leito do rio Iguaçu.

Até meados da década de 1980 muitas pessoas trabalhavam retirando seu sustento diretamente do rio Iguaçu, como as famílias de João Ribas, de Joaquim Lima, de João Martins, de Alfredo Ville, de Abílio Ferreira da Silva (conhecido como Campina), de Narcizio Pietrowski (conhecido como Pireski), entre outras. Com barcos construídos por eles mesmos, se locomoviam através do rio retirando com pás a areia do fundo. Sabiam de cor onde havia areia da grossa, da fina, pedregulho, e ali trabalhavam juntos.

Essa areia era encomendada por estabelecimentos comerciais de materiais de construção (que eram muito poucos na época), pela prefeitura municipal e por particulares, que a levavam direto para suas construções em caminhões e até em carroças. O próprio aterramento para a construção da Repar – refinaria da Petrobrás – , na década de 1970, foi feito com areia retirada manualmente do rio Iguaçu. Luiz Carlos de Lima trabalhou na extração de areia durante muito tempo com seu pai e outros familiares, e ainda possui barcos que ele mesmo fabricou. Ele lembra que era comum ver de 10 a 12 barcos pelo rio fazendo a retirada da areia.

Não havia concorrência entre essas famílias, mas sim cooperação. Juntos trabalhavam, pescavam, tomavam banho de rio e até jogavam futebol perto de sua margem. Além de fabricarem os barcos também fabricavam seus ins­trumentos de trabalho, como uma espécie de concha feita de folhas de latão com furos embaixo, que necessitava de força nos braços para ser puxada do fundo do rio cheia de areia molhada para dentro dos barcos. “Colocava no bote, enchia o bote, tinha a carga de um metro cúbico, que a gente diz, e peso de mil e quinhentos quilos. Então, pra você ter uma ideia, uma tábua de doze de altura, vinha acho que meio centímetro fora da água, quase afundando” – lembra-se Alfredo da Cruz, que durante muito tempo de sua vida fazia esse tipo de extração junto com seu pai João Ribas – “Pra mim era a maior satisfação estar trabalhando ali, junto com meu pai, meus irmãos, né? Meus parentes, gente que convivia com a gente trabalhando ali também, porque enquanto você trabalhava no pesado, sofria, mas dali há pouco você já estava ali tomando um banho, água muito limpa, gostosa, a gente tomava água no rio Iguaçu, ia pescar, então a extração de areia, pra nós, era o nosso trabalho”, lembra ele com saudade dessa época.

A extração de areia continua, só que atualmente não é mais feita de forma manual por famílias que residem às margens do rio, mas por empresas que empregam mão de obra e utilizam maquinários de dragagem e retirada. Dessa forma, olhando para o passado e pensando na importância do empenho desses trabalhadores ao longo do tempo, podemos concluir que, como as construções na cidade foram feitas basicamente com essas areias, Araucária literalmente saiu do rio Iguaçu.

Texto: Cristiane Perretto e Luciane Czelusniak Obrzut Ono

Publicado na edição 1158 – 11/04/2019

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