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Curar a alma para tratar o corpo – benzedeiras e benzedores em Araucária

Antônio Kolachak, 2011, acervo do Arquivo Histórico Archelau de Almeida Torres

 

Desde tempos imemoriais o homem recorre ao transcendente buscando auxílio para enfrentar as dificuldades da vida terrena, seja nas questões de saúde, trabalho, ou em suas relações interpessoais, e, muitas vezes, essas práticas acabam relacionando magia, religiosidade e medicina popular. Nas sociedades de característica camponesa, principalmente pela falta de recursos médicos acessíveis, era comum a existência de pessoas procuradas por seu co­nhecimento em medicina popular, que geralmente era advindo de seus antepassados, referente ao poder de cura por meio de ervas e outros produtos naturais, ou, às quais se atribuíam poderes mágicos, cujas palavras, pensamentos ou o toque, geralmente acompa­nhados de orações, eram capazes de curar ou abrandar o mal, especialmente os de causas desconhecidas atribuídas a questões sobrenaturais.

Nos tempos em que Araucária configurava-se essencialmente co­mo agrícola, os procedimentos médicos demandavam dinheiro, as estradas eram precárias, e o meio de transporte rudimentar, o recurso às benzedeiras e benzedores era a alternativa mais viável. Existiam também aqueles cujos poderes e conhecimentos destinavam-se a curas referentes aos animais de criação e de tração, que eram amplamente procurados pelos mesmos motivos.

Mesmo com a metropolização de Curitiba na década de 1960, o que configurou a crescente industrialização e urbanização de seu entorno, a melhoria na escolaridade e no acesso ao atendimento médico gratuito, as benzedeiras e benzedores continuaram existindo. Com exceção daqueles cujas ações se destinavam a animais de tração, que foram substituídos por maquinários, e tiveram a procura diminuída considera­velmente, os demais continuaram tendo procura considerável por seu efeito ser tido como mais rápido ou como complemento ao tratamento médico convencional, até porque muitos males do corpo e suas curas passaram a ser conhecidos, no entanto, dificultosas ou inacessíveis.

Em entrevista concedida em 2011, antes de falecer, o senhor Antônio Kolachak contou que aten­dia cerca de 70 pessoas por semana em sua casa, na região de São Miguel. Curiosamente, geralmente a fila para atendimento com o benzedor era maior do que a de pessoas que procuravam o posto de saúde mais pró­ximo, o da Vila Angélica, o que ele atribuía a seu dom de conversar e acalmar para curar a alma e então o corpo. Sendo assim, a maior explicação para que as pessoas ainda recorram a essas práticas, e que remédio nenhum substitui, resume-se a uma só palavra: fé.

Essa coluna continua…

Publicado na edição 1138 – 08/11/18

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