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Mulheres operárias e seu cotidiano na fábrica de tecidos

Seção de penteação da Cia São Patrício, década de 1940

 

Um dos trabalhos mais significativos e gratificantes que o Arquivo Histórico Archelau de Almeida Torres realiza desde a década de 1990, é o de coletar depoimentos entre os antigos moradores do município que são posteriormente disponibilizados como fonte para pesquisas, exposições e demais publicações referentes principalmente a história local.

Atualmente, o Arquivo conta com mais de trezentas entrevistas e ou depoimentos que foram realizadas levando em conta a metodologia da história oral, que consiste na realização de entrevistas com indivíduos que participaram de, ou testemunharam acontecimentos e conjunturas do passado e do presente.

A partir de temas previamente definidos, os técnicos do Arquivo Históricos partem em busca de preciosas memórias que possam contribuir para reconciliar o saber científico com o povo.

Cia São Patrício Fábrica de Tecidos de Linho. 1950. No bairro Centro

Em 2017, tivemos a satisfação de resgatar algumas memórias que acrescentaram muito a nosso acervo já tão rico. Visitamos quatro mulheres, entre elas: Geny Hinça Druszcz, Adelina Pires, PhilomenaFurman e Ana Falat, todas testemunhas da vivência em um mesmo ambiente de trabalho, que ainda entre as décadas de 1940-60 envolveu especialmente o feminino. Todas as quatro foram operárias na antiga tecelagem – Cia São Patrício Fábrica de Tecidos de Linho. Sabemos que muitas outras também foram e suas memórias ainda nos aguardam para resgate, entretanto o importante é que o tra­balho já foi iniciado. Muitos trechos das entrevistas com elas merecem destaque, porém neste momento, procurando contribuir para o debate com relação a condição feminina em nossa sociedade, disponibilizamos trechos de seus depoimentos que podem remeter o leitor a tantas reflexões pertinentes e atuais com relação as mulheres, suas lutas e sua história.

O que elas dizem:

“Chegava com o pagamento em casa, não pegava nenhum real. Dava tudo pro meu pai. Ele dava dinheiro pra mim comprar uma gasosa e um chineque pra levar no outro dia. [risos] Eu lembro… e daí aquele dinheiro ele ajudava a família. Ele guardava pro meu casamento, comprar enxoval. Tudo pro pai, nunca fiquei com um real meu.” (…)(Geny Hinça Druszcz)

“Naquele tempo era muito difícil (…)… era acompanhado por contramestre e não podia se faltar nunca, horas nenhuma. Era muito vigiado, era muito difícil trabalhar naquela época. (…) Tinha que ter uma produção(…). por dia. Ah, eu tinha que encher … umas 8 vezes uma massaroqueira de fio… (…) era trabalhado em máquina. Neste setor eram umas 20 mulheres. (…) Ajudavam, uma ajudava a outra e tinha mais várias máquinas naquele setor.” (…)

“(…)achavam que a mulher que trabalhava na fábrica não merecia aquele respeito sabe? Era um preconceito muito grande.(…) tinha muito preconceito com funcionária, empregada, porque eles não diziam funcionária como hoje se diz funcionária. Era empregada, as empregadinha da fábrica. (…)” (Philomena Furman)

“(…) Tinha mulheres que pegavam, por exemplo: Eu vou trabalhar da uma as dez, da uma às dez da noite, mas tem uma que mora comigo que vai trabalha das 5 da manhã até uma e meia. Então ela sai, e vem cuida, dos meus filhos e ela… a mãe dos filhos vai trabalha. Então as mulheres se arrumavam assim pra poder trabalhar né. Era do interior (…) e vinha morar com uma pessoa que trabalhava já na fábrica e ela pegava serviço e daí cuidava dos filhos (…)(Philomena Furman)

(…)Era uma turma de mulheres, daí saía aquela turma de mulheres e entrava outra turma. (…) Ir tomar uma água, ir pro banheiro podia. Só que tinha um tempo limitado. É, senão o contramestre já ia atrás ver o que que estava acontecendo. (Philomena Furman).

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