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A volta para dentro de si mesmo

Vivemos num mundo muito preocupado com a aparência, com o externo, com aquilo que salta aos olhos, através do corpo, enfim, do puramente físico. Para demonstrar uma eterna juventude, o visual é visto como algo fundamental. Gasta-se uma enormidade com produtos de pele, com cirurgias plásticas, com preocupações exageradas em manter o corpo apresentável e atraente aos olhos dos outros. Chamar alguém de gordo, mesmo quando as evidências o atestam, ou então, de careca, pode desencadear uma espécie de bullyng causando um verdadeiro transtorno naquele que fez tais considerações. Com isto não estou defendendo o deboche, em hipótese nenhuma. O ser humano deve ser respeitado na sua totalidade, e por vezes, exatamente pelos seus complexos diante do seu tamanho, cor, peso, deve ser plenamente acolhido como ele é. O que estou colocando em questão é esta preocupação exagerada e desproporcional com o cuidado apenas externo, como se a correção e melhora neste campo pudesse resolver os problemas fundamentais da raça humana.

Voltando no tempo, no século I da nossa era cristã, Sêneca já manifestava esta preocupação com o puramente físico, através de uma frase célebre: ‘a deformidade do corpo não afeta a alma, mas a formosura da alma se reflete no corpo’. A aceitação do corpo requer uma aceitação de si mesmo no seu profundo. No livro ‘Pequeno Príncipe ‘ encontramos uma constatação magistral neste sentido: ‘o essencial é invisível aos olhos’. E mais, a verdadeira felicidade não se encontra nas coisas, no externo, mas dentro de cada um de nós. Portanto, a volta para si mesmo, para um encontro consigo mesmo, torna-se fundamental para a realização plena do ser humano. Já nos tempos idos, bem antes de Cristo, o filósofo Sócrates assim exprimia o seu pensamento a este respeito: ‘nosce te ipse’, que traduzido para o português significa: ‘conhece-te a ti mesmo’.

Esta preocupação exagerada com o corpo, como se ele fosse o todo, acaba ignorando as demais necessidades do ser humano, tais como: somos seres pensantes, emocionais, relacionais e espirituais. Quando tudo se reduz ao físico, acontece então o esvaziamento do sentido, dos valores, da profundidade, e o ser humano beira à mediocridade. A essência da raça humana, ou seja, a sua profundidade, a sua alma, os princípios são colocados à margem; o corpo, o físico, a beleza externa, a estética, são exageradamente valorizados e relevados à categoria suprema e fundamental. O centro que é o interior acaba indo para a periferia; e a periferia, que é o corpo, assume o papel de centro. É o que nós chamamos de inversão de valores, que infelizmente afeta profundamente o homem pós-moderno.

Diante deste quadro, tão marcado pelo mundo consumista, torna-se determinante a volta do ser humano para dentro de si mesmo. No seu interior se esconde o verdadeiro tesouro que harmoniza os seus sentimentos; integra as razões profundas da sua existência; desperta a essência da sua vida, ou seja, o amor que se materializa através de palavras, gestos e ações. Um amor que se coloca a serviço do outro, na doação sincera em prol de um mundo mais irmão, onde a justiça e a dignidade de cada ser humano sejam o centro das nossas ações. Torna-se urgente mudar este quadro, tão marcado e deturpado pelas necessidades doentias de um corpo saudável e sarado, fechado em si mesmo, na satisfação puramente pessoal e egoísta. Abrir-se então para o interior, porque ali está a morada de Deus, que nos ensina que a vida só tem sentido, quando colocada gratuitamente a serviço do outro.

 

Publicado na edição 1104 – 15/03/2018

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