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Abandonando tudo, eles o seguiram


A história da vocação dos primeiros discípulos de Jesus é comovente e apaixonante. Eles eram homens rudes, sem muita instrução, pescadores. Jesus pôs o olhar neles, confiou nas suas capacidades, chamou-os para a missão, e, eles, largando tudo, o seguiram. Foi uma decisão corajosa, ousada, talvez não muito clara, mas com toda certeza, cheia de boa vontade. Deixar tudo para seguir a Jesus foi um grande risco, sem saber o que os esperava pela frente. E eles, foram aos poucos compreendendo o verdadeiro significado deste chamado. Nada de vida fácil, de regalias, de recompensas materiais, mas, acima de tudo, muito serviço, doação, entrega livre e gratuita. Pedro, inclusive, vai questionar o Mestre: ‘e nós que deixamos tudo, o que vamos receber em troca?’ E Jesus responde: o cêntuplo neste mundo em amigos, casas e famílias e mais a eternidade. Ou seja, nenhuma recompensa material, pelo contrário, doação total em prol de uma causa, de um projeto.

Os discípulos vão aprendendo a verdadeira razão do seguimento a Jesus, através do contanto diário com o Mestre. Através de palavras, gestos e ações, ele vai apresentado as características do Reino de Deus. Jesus não lhes promete dinheiro, nem poder, mas sim, pede a eles que sejam os últimos, ou seja, aqueles que dão o exemplo, através do serviço de amor, de compaixão, de misericórdia, em prol dos mais fracos e desprezados da sua época. No contato com ele, como um verdadeiro seminário, cujo formador é o mestre Jesus, eles vão deixando para trás velhos hábitos, aprendidos na relação com os doutores e mestres da lei. Estes pregavam privilégios, a busca dos primeiros lugares, a pureza externa como fator determinante na condução de uma pessoa. Jesus, pelo contrário, para trazer uma proposta totalmente nova, onde grande, primeiro é aquele que serve, e não aquele que é servido.

Os doze apóstolos são os primeiros a seguir as propostas apresentadas pelo Filho de Deus. Com certeza, foi muito doloroso para eles quebrar velhos paradigmas, sonhos acalentados pelo poder e por uma vida economicamente mais estável. Jesus não lhes promete nada disso, pois ele próprio não tinha onde reclinar a sua cabeça. Vivia numa pobreza extrema, sem casa, sem um lugar onde morar, vivendo de favores. Pela história, ele era hóspede continuo de Pedro, passando a maior parte em Cafarnaum, na sua casa. Ele não tinha uma moradia própria. Imaginar um Deus tão humano e tão pobre, por vezes nos inquieta. Sendo de condição divina, desceu até nós tornando-se gente e o escravo de todos, nos diz São Paulo.

Seguir Jesus no contexto atual é realmente um grande desafio a todos nós cristãos. Requer um despojar-se, renunciar tantas coisas, para dedicar-se ao Reino. O apelo que ele faz aos seus discípulos continua ecoando em cada um de nós: não leveis nada pelo caminho, ou seja, liberdade plena no anúncio da boa nova. Uma pena que a mensagem de Jesus tenha se deturpado tanto, a ponto de ser comercializada, como algo rentável e vantajoso.

Em nome de Jesus, tantos pregam a prosperidade, a troca, uma vida materialmente cheia de vantagens e de sucesso. Apenas interesses humanos, materiais, distante da mensagem do Mestre, que pede pobreza e desprendimento total. Deixar tudo não significa abdicar daquilo que é necessário para uma vida digna, mas colocar a sua vida a serviço dos irmãos, através da partilha e da solidariedade. A caridade para com o próximo está acima de tudo. Pensar no bem do outro, colocar a vida a serviço dos irmãos, dedicar seu tempo a quem necessita de um pão ou de uma palavra de conforto, é o grande desafio do seguimento a Jesus.

Publicado na edição 1149 – 07/02/2019

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