Home / Colunas / Padre André Marmilicz / O ser acima do ter

O ser acima do ter

A atitude da viúva no templo de Jerusalém, quando ofereceu tudo o que tinha, contrasta com aqueles que doavam a sobra, mesmo que em quantidade maior. Jesus, grande observador que era, percebeu no gesto daquela mulher, um total desprendimento, sem saber se teria algo para comer no dia seguinte. Este fato mexeu tanto com o mestre, que, imediatamente ele o contou aos seus apóstolos. Estava simplesmente impressionado com o jeito humilde e totalmente desprendido daquela pobre viúva. Cita esta mulher como exemplo para todos aqueles que querem seguir verdadeiramente a Deus.

O ser humano sempre teve muita dificuldade para partilhar. O desejo de possuir, de acumular, está dentro de cada um. Mesmo tendo o suficiente ou além do necessário, ou mais, mesmo tendo sobras, parece que ele não se conforma e quer mais e mais. Isso, de certa forma o preenche, como se o ter estivesse acima do ser. Lhe dá aquela satisfação de sentir-se seguro, protegido, em detrimento daquilo que é por dentro. A ganância toma conta de sua vida, e por mais que tenha e tenha muito, quer sempre mais, e divide menos, encontrando uma enorme dificuldade para partilhar com os outros.

Dias atrás conversei com uma senhora que está bastante doente e enxerga mal, e mesmo assim, ela me contava que encontra uma enorme dificuldade de se desprender dos bens deste mundo. Tem terrenos, casas, e no meio da doença, isso a preocupa e muito, pois deverá deixar tudo isso. Como é difícil desprender-se dos bens deste mundo. Parece que eles nos dominam, e mesmo na hora derradeira, eles insistem em tomar o centro da nossa existência. São Paulo nos pedia para buscarmos as coisas do outro mundo que não perecem, porque as coisas deste mundo se deterioram e com o tempo perdem todo o seu valor. Buscar as coisas do alto, nem sempre agrada, sobretudo, àqueles que vivem função da matéria, do ter, do possuir, do acumular, sempre mais e mais.

Entre os maiores valores do reino de Deus, está a partilha. Somente um coração cheio de bondade, que prioriza o ser em vez do ter, é capaz de partilhar com alegria aquilo que tem e aquilo que é. Nada neste mundo é definitivo e nos pertence para sempre. O apego aos bens materiais demonstra um coração vazio, incapaz de pensar no próximo. Revela um ser humano egoísta, individualista e tantas vezes, mesquinho. Se os seres humanos pensassem mais no outro, com certeza, haveria para todos e não teríamos esta tremenda desigualdade social. Alguém dizia que tem dinheiro para ser gasto pelas três ou quatro futuras gerações. Isto simplesmente é um pecado social, pois cada um deverá ganhar o pão de cada dia, através da força do seu braço e do suor do seu rosto.

Mais do que a preocupação com o ter, com a ganância acumule amigos verdadeiros; partilhe seu tempo com os demais, fazendo trabalhos gratuitos e voluntários; dê atenção para os seus filhos e coloque a família em primeiro lugar; encontre tempo para fazer exercícios físicos, cuidar da sua saúde; visite os doentes, e leve conforto e esperança a quem está sofrendo; encontre momentos de silêncio para refletir a sua vida, estar com Deus e deixar que ele fale ao seu coração; leia um bom livro, pois ele faz um bem enorme para a alma; telefone para alguém e diga o quanto ele é importante na sua vida; não deixe de expressar o amor que você tem pelos seus amigos e seus familiares. Isto sim dá sentido verdadeiro à sua vida e permanecerá para sempre. Coloque o ser acima do ter. E a sua vida será bem melhor.

Publicado na edição 1138 – 08/11/18

Sobre Redação

Redação

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado. Campos marcados com * são obrigatórios *

*