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Tinham os olhos fixos nele


O evangelista Lucas nos apresenta no início do seu evangelho o programa de Jesus para com a humanidade. Sua fama já estava espalhada por toda a redondeza. Ele ensinava na sinagoga e todos o elogiavam. E foi então para a cidade de Nazaré, onde tinha se criado. Conforme seu costume entrou na sinagoga no dia de sábado, e levantou-se para fazer a leitura. Escolheu então o livro do profeta Isaias, que diz: o Espirito do Senhor está sobre mim, me ungiu e me enviou para anunciar a boa nova aos pobres, proclamar a libertação dos cativos, dar a vista aos cegos e libertar os oprimidos. Fechou então o livro, sentou-se e todos tinham os olhos fixos Nele. E disse: hoje se cumpriu esta passagem da escritura que vocês acabaram de ouvir.

O programa de Jesus não fala de conversão dos pecadores, mas está claramente voltado para os que sofrem e os que estão excluídos da sociedade, desprezados e colocados como últimos pelos homens. A sua missão está plenamente voltada para a libertação do homem de todo tipo de escravidão. É o Espirito de Deus que o impulsiona a ir ao encontro dos menos favorecidos, porque Deus é o Deus da justiça e quer vida plena para todos. Enquanto existir no mundo desigualdade social, sofrimento, fome, injustiça, opressão, miséria, o Reino de Deus ainda não estará plenamente instaurado entre os homens.

Os olhos estavam fixos nele, porque todos estavam impressionados com o jeito de ser de Jesus, de falar de Deus, de anunciar o seu projeto libertador. A boa nova apresentada por ele contempla acima de tudo os que sofrem. Ele mesmo disse diversas vezes: não são os que estão bem de saúde que precisam de médico, mas o que sofrem. Como o bom pastor, ele vai ao encontro da ovelha desgarrada, da ferida e machucada. Isso não quer dizer que ele despreza as demais, mas, dá uma atenção especial àquelas que mais necessitam da sua presença, da sua palavra, da sua solidariedade.

O papa Francisco numa de suas belas pregações dizia: tocar na carne do doente, do pobre, do marginalizado, do excluído, é tocar no próprio Cristo. Profunda e desafiadora esta mensagem do santo padre, tão próximo e tão preocupado com os que sofrem. Seguidamente convida os pobres de Roma a almoçar com ele, em sua própria casa. Que gesto maravilhoso e significativo! Seguindo o exemplo de Jesus, ele acolhe os abandonados, marginalizados e sofridos da nossa sociedade, dando a eles palavras e gestos de esperança. Assim também, cada um de nós, manifesta o seu amor a Jesus, através da partilha, da solidariedade, da preocupação com os mais abandonados da sociedade.

São Paulo vai dizer que a caridade está acima de tudo. Mesmo que falasse a língua dos anjos, conhecesse o dom das profecias, das ciências, mas sem amor, isso de nada adiantaria. Só o amor, feito gesto concreto em prol dos mais sofridos, nos garante o verdadeiro seguimento a Jesus Cristo. Uma oração desencarnada, distante, por vezes até em meio a lágrimas, intimista, preocupada só consigo mesmo, nos distancia de Jesus. O verdadeiro cristão coloca a sua vida a serviço dos que sofrem, está preocupado em ajudar os mais necessitados, dando seu tempo àqueles que mais dele necessitam. O programa de Jesus, apresentado em Lucas, nos desafia a colocarmos a nossa vida a serviço dos sofredores e excluídos da sociedade. E isso foi o que Jesus fez ao longo de toda sua missão. Ter os olhos fixos nele é fazer aquilo que ele fez: ir ao encontro dos pobres, dos presos, dos cegos e oprimidos da sociedade.

Publicado na edição 1147 – 24/01/2019

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