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Costelinha de porco

– Tenho más notícias. Seus exames indicam que seu estado é irreversível. Eu diria que o senhor tem mais uns setenta dias de vida.


Não deve ter sido fácil escutar isso. Meio choroso, o senhor de 60 anos voltou para casa pensando na brevidade da vida e em como somos apenas um instante entre ou­tros tantos, um susto, um espirro. Esperou começar a se sentir pior a cada dia, a doença lhe corroendo os ossos, veias, tecidos. Deitou-se e decidiu esperar o frio e derradeiro beijo da morte.

Mas passou uma semana, sete dias que correspondiam a dez por cento do prazo de vida que ain­da lhe restava, e ele continuava se sentindo igual. Até melhor, já que passou um bom tempo descansando. Levantou-se da cama e passou o dia resolvendo pequenas burocracias, afinal a conta de luz continua chegando, mesmo aos moribundos.

A família achou que essa melhora era aquele último suspiro, aquela aliviada que a pessoa dá antes de piorar de repente e morrer, portanto trataram o fato como uma despedida: fizeram sua comida favorita e o agradaram o máximo que puderam.

Aos vinte dias ele já esperava a morte na sala mesmo, a TV pelo menos o distraía, e depois de tanto tempo deitado suas costas começaram a doer. O cardápio da casa voltou ao normal, não dava pra comer costelinha de porco todo dia.

Trinta e cinco dias foram a marca de meio caminho até o caixão. Mas ele seguia forte e sentindo-se bem normal. A vi­zinhança passava na frente da casa e espiava para dentro do terreno esperando ouvir lamentações. A notícia daquela morte iminente já havia se espalhado e a morbidez tomou conta do bairro. No 69º dia todos sabiam: é amanhã. Ele mesmo até deixou um terno preparado para o dia seguinte, para já poupar a família do trabalho de vestir um defunto.

Chegado o dia de sua morte, ele acordou cedo, barbeou-se, vestiu o terno e esperou: a qualquer momento ela virá, com sua túnica preta e sua foice, me buscar pela mão. Tomou um café e pensou “é meu último café”. Pela manhã passeou pelo centrinho da cidade, despedindo-se dos amigos e conhecidos que o olhavam com pena e saudade antecipada. Logicamente, havia alguns que secretamente desejavam seu fim. Esses o seguiam com o canto dos olhos, esperando presenciar o momento.

Voltou para casa, almoçou seu último almoço, degustando com o prazer que só a certeza de que é a última vez proporciona. A família olhava para ele, chorosa. É hoje. Alguns vizinhos o visitaram à tarde. Perguntavam se ele gostaria de companhia para seu passamento. Ele preferiu ficar sozinho no último momento, rezando. Disse que havia decidido poupar as pessoas de assistir à cena.

A noite chegou, ele despediu-se da família e recolheu-se a seu quarto. Adeus.

Hoje, trinta e cinco anos depois, o senhor de 95 anos acredita que a conta não estava exata. Morreram vizinhos, esposa, filhos, o médico, e ele ainda espera. Sempre que pode, come costelinha de porco.

 

Publicado na edição 1103 – 08/03/2018

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