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O vexame


O amigo insistiu tanto que eu aceitei o convite: no próximo sábado vou conhecer a igreja que ele frequenta. Já faz meses que ele me convida, insiste, quase me obriga. Resolvo que mal não vai fazer, afinal é um culto de duas horas, apenas. Na pior das hipóteses serão duas horas meio chatas.

Chega o sábado e eu torço para que o amigo tenha esquecido do assunto, o que não acontece: às 19h40 escuto a buzina, o rapaz fez questão de me buscar em casa. Talvez temendo que eu não aparecesse. Talvez o temor tivesse fundamento.

Chegamos, entramos, sentamos no meio do povo. A igreja é grande, mas lota com facilidade. Cumprimento dezenas de desconhecidos que vêm até mim, mesmo naquela multidão eles parecem reconhecer quem é forasteiro. Será que minha aura brilha com uma cor de não-iniciado? A paz do Senhor, opa, obrigado, você também. Esse não é o cumprimento padrão, aos poucos percebo olhares de curiosidade em minha direção.

O pastor grita muito, um tom de voz agudo e irritante, mas rele­vo, já esperava esse clichê. Meu amigo, sentado ao meu lado, está entregue a suas palavras. No meio do culto ele faz uma pausa e pergunta algo que eu imaginava que perguntaria: – tem alguém que está aqui pela primeira vez?

Eu já esperava a pergunta e tinha me preparado para isso: já havia decidido de antemão que ficaria completamente imóvel, nada disso é comigo. Esperei que outro novato se manifestasse. Nada. O pessoal em volta de mim começa a me olhar. Ignoro, impassível. Nada disso é comigo.

Uma senhora na fila da frente se levanta, penso que ela é iniciante e vai assim se declarar, erro meu: ela aponta para mim: “ele aqui, pastor”. Mas que senhora mais dedo-duro! Estou petrificado, na vila em que moro alcaguetes assim não se criam. O pastor vem gritando pro meu lado e me puxa pela mão.

Estou com a cara latejando de vergonha enquanto ele me puxa, gritando coisas sobre novas almas para Jesus, nesse momento sua gritaria já me incomoda mais, mas o pior é estar em evidência, preferiria ir embora e nunca mais ver essas pessoas, nem meu amigo, principalmente aquela senhora, nunca vou esquecer aquela trairagem.

O pastor pede silêncio, me orienta para ficar de frente para o público, aquela multidão me olhando, todo mundo quieto, eu não acredito que sou o único novato aqui, olhan­do para as pessoas tento reconhecer outro igual a mim, aquele ali tem cara de que também é novato, penso em denunciá-lo mas aí eu me igualaria à baixeza daquela senhora.

O pastor coloca a mão na minha cabeça e começa uma oração, bem baixinho, no microfone. Só se escuta a sua voz, quase um sussurro. Só quero que acabe logo. Nesse momento já decidi que nunca mais vou falar com meu amigo, agora ex-amigo. Tento me tranquilizar, falta pouco.

Quando o barulho de um toque de celular ressoa por todo o ambiente, no último volume. O pastor interrompe a oração. O celular toca novamente. O pastor grita “não atenda que é o Diabo que está ligando pra te tirar daqui”, nesse momento eu até ignoro esse absurdo, desde quando o diabo começou a usar telefone celular?, literalmente quero morrer porque o celular é justamente o meu. Continuo olhando para a frente fingindo que não estou sentindo o aparelho vibrar no meu bolso.

Finalmente o barulho para, a oração acaba, o pastor me libera e eu volto ao meu lugar. Posso ver quem estava me ligando. Para ajudar, ainda era ligação de cobrança, então, bem, de certa forma era mesmo o capeta. Meu amigo deixa de falar comigo depois que recuso o convite para voltar à igreja na semana seguinte. Graças ao bom Deus nunca mais vi aquela senhora.

Publicado na edição 1159 – 18/04/2019

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