Orra

Do pátio da escola é possível ver a rua, a única rua asfaltada do bairro naquele início dos anos 90. Estamos nos preparando para voltar do recreio, eu e meu amigo, quando ele aponta para o asfalto, chamando minha atenção para um caminhão enorme que se esforça para subir a rua. O veículo me impressiona e eu exclamo: “orra”.

Imediatamente ele me olha com espanto e ameaça: “vou contar pra professora que você disse um palavrão”. O espanto se torna meu, alego que a palavra “orra” não pode ser classificada como palavrão, mas ele se mostra inflexível, é sim um palavrão, e demonstra que até mesmo nossa amizade está em risco depois de minha tão impensada atitude.

A situação me abala. Tento dizer a ele que mesmo que “orra” fosse palavrão eu não sabia disso e, portanto, ainda que a palavra em si tenha sido dita, e sobre isso não havia dúvida, sua função na frase não desempenhava sentido de agressão, mas de espanto. Ele, que talvez tenha se tornado advogado no futuro (no presente?), me informa que o desconhecimento da Lei não me isenta de cumpri-la.

Agora inseguro sobre o significado de “orra”, decido que a melhor forma de descobrir se eu era inocente ou culpado era procurar uma especialista no assunto, melhor ainda se a especialista fosse a juíza que apreciaria o caso.

Corro até a sala de aula, onde a professora já está sentada à mesa e me olha com surpresa, ainda nem bateu o sinal, por que você já entrou? Pergunto a ela, com vergonha, afinal posso estar sendo boca-suja com a professora, se “orra” é palavrão. Ela me tranquiliza, pode voltar para o recreio, não é.

E agora, tendo já certeza da inocência, sorrio por dentro enquanto meu amigo continua a desfiar seu rosário de ameaças, exemplificando para mim as punições a que eu seria submetido após sua delação, eu poderia ser condenado até a assinar o livro negro, aquele livro que mancha a reputação de uma pessoa para o resto da vida.

O sinal bate, anunciando a hora de voltar do recreio, e como estamos embaixo da campainha, eu simulo susto e digo “orra, que sinal alto”. Meu amigo me olha enfurecido, determinado a me fazer pagar caro por mais essa provocação. Eu digo “orra, se acalma”.

Entro com tranquilidade na sala de aula e vou até minha carteira, a professora vai organizando os alunos, conversando com alguns, e noto, em pé, na frente dela, aquele alcaguete que me ameaçava no parágrafo anterior.

Não consigo ouvir mas a leitura corporal é clara: ela se abaixa, ele diz algo no ouvido dela, ela sorri e faz que não com a cabeça, orienta para que ele sente-se, vai começar a aula. Passa pelo meu lado envergonhado, ainda a tempo de me ouvir dizer “orra, o que você disse pra professora?”.

E como não canso de dizer a palavra, e pelo jeito não cansaria nunca, no dia seguinte a professora determina que, por repetidas provocações ao meu amigo, pela primeira vez eu assine o livro negro.

Publicado na edição 1125 – 09/08/18

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