Vivemos num mundo marcado pelo capitalismo, onde praticamente tudo deve ser materializado, provado, tocado e explicado. Vale aquilo que tem utilidade, tem valor material, e as coisas assumem um poder enorme e as pessoas também acabam valendo por aquilo que tem e não por aquilo que são. Daí a vontade de comprar além do necessário, de trocar aquilo que ainda está bom e funcionando, por uma nova linha, uma nova geração. As pessoas tendem a ser obsessivas, a adquirir produtos quando na verdade dele não necessitam, mas compram porque está em oferta e é um novo modelo imperdível. Invejamos aqueles que podem comprar tudo o que querem, gastar naquilo que lhes convém, vivendo num verdadeiro paraíso terrestre. Os empregos mais rentáveis são os mais atraentes, mesmo que não condizem plenamente com uma realização pessoal. Mesmo aqueles que vivem à margem destas possibilidades, no fundo sonham em um dia chegar lá. Tantos, na ilusão de serem milionários, apostam em jogos que possam lhe dar um retorno imediato.

A pós-modernidade trouxe uma série de benefícios materiais, de novas possibilidades inimagináveis num passado recente. Na verdade, apesar de todas estas ilusões materiais, poucos são os que realmente conseguem atingir o máximo grau de uma vida cômoda e cheia de regalias. Mas, no fundo, os meios de comunicação nos iludem dizendo que é possível comprar tudo o que você quiser, pois os produtos veiculados geralmente apelam para um velho bordão: ‘cabe no seu bolso’. Ou seja, você pode comprar tudo o que você quiser, parcelando em inúmeras vezes, com parcelas que ‘cabem no seu bolso’. E assim, as pessoas de modo geral continuam acreditando e se iludindo em conseguir tudo o que quiserem, como se isso, realmente, fosse preencher as suas necessidades vitais e fundamentais.

Neste emaranhado de propostas e de ilusões, a fé caminha à margem do ser humano. Mas também ela tantas vezes é usada e manipulada para conseguir bens materiais. Veicula-se uma ideia de que a fé em Jesus muda radicalmente a sua vida, adquirindo bens e propriedades, pelo simples fato de acreditar. Tantas igrejas, infelizmente, nascem prometendo prosperidade e bem estar para aqueles que seguirem a Jesus. Basta ser fiel para conseguir tudo o que você quiser. Vende-se a imagem de um Jesus que quer a sua riqueza, bens materiais, uma vida cheia de regalias e de farturas. Programas de radio pautam toda a sua pregação em cima disso, com testemunhos de pessoas que tiveram uma mudança radical em suas vidas depois que conheceram a Jesus e se converteram para determinada igreja. Santo Deus! Quanta mentira e quanta manipulação, sabendo que o próprio Jesus morreu sem ter onde reclinar a sua cabeça.

A verdadeira fé foge de toda esta lógica humana, pois ela não requer provas e nem constatações materiais. Crer é um verdadeiro salto no escuro, a exemplo de Abraão que acreditou contra toda esperança. Crer é um ato de fé, que brota do interior do ser humano, sem necessidade de milagres constantes e provas físicas. Muitos só acreditam vendo, a exemplo de Tomé. Quantos ‘Tomés’ no mundo moderno, que acabam deixando a sua igreja porque a igreja do vizinho promete milagres e a outra não. Ledo engano! A ressurreição de Jesus é um verdadeiro ato de fé – creio ou não creio – porque ninguém viu, filmou ou fotografou este momento. Crer é no fundo, um ato de despojamento e de entrega a Deus, na certeza de que ele é o Senhor da nossa vida e sempre quer o melhor, mesmo na dor e no sofrimento, na perda ou na morte de um ente querido. A fé é um verdadeiro salto no escuro.

 

 

Publicado na edição 1108 – 12/04/2018