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A verdadeira face da corrupção


A luta contra a corrupção muitas vezes é distorcida por discursos de ordem moral, que a reduzem a questões de caráter de um povo, uma classe ou partido. A mídia é uma grande responsável por essa caracterização. Além disso, coloca países em desenvolvimento como sendo atrasados, que é uma fala adotada pela direita para culpar a ineficiência do estado e fazer valer lugares comuns como a lógica das privatizações.

Importante tratar, dentro do tema, da relação entre o Estado e as empresas privadas (corporações).

O Estado, ao invés de exercer seu papel de responsabilidade com a sociedade, atua como um facilitador e protetor das corporações, oprimindo o povo. Isso tem tomado proporções absurdas nos últimos tempos e ocorre pela lógica capitalista – quem tem o capital (dinheiro) domina quem executa a força de trabalho que gera o capital (o cidadão).

O capitalismo não nasceu naturalmente: o dinheiro sempre exerceu poder, mas a intervenção do Estado inglês foi decisiva no processo. Já no século XVI, o Rei Henry VII teria tentado barrar a exploração, mas já havia se tornado dependente e vulnerável ao poder do dinheiro. Já estava amarrado à dívida pública. A lei se tornou um instrumento através do qual a terra é tirada dos trabalhadores.

Desde o seu início, o Estado capitalista tem fracassado continuamente em seu papel de assegurar o bem comum ou garantir os direitos dos cidadãos contra os abusos do mercado. Atua para legitimar a violência sobre nós.

Exemplos disso são fiscalizações que culminam em desastres ambientais, como o que ocorreu em Mariana (Samarco/Rio Doce), ou o desmoronamento de um prédio ocupado em São Paulo por famílias inteiras que não tinham onde morar. Também podemos relacionar, por exemplo, às longas esperas nos postos de saúde ou à defasagem do transporte público, com redução de linhas ou diminuição da frota. Assim, a violência do estado contra o povo se constitui a regra e não exceção.

O neoliberalismo, corrente de pensamento que defende a não participação do estado na economia, onde deve haver total liberdade de comércio, caminhou para uma crise de responsabilidade. A percepção de que “para os grandes tudo, para o povo nada”, é geral. Ao mesmo tempo em que a lógica do livre mercado e das privatizações são potencializadas, cortes públicos são crescentes e bens públicos tornam-se cada vez mais deteriorados.

Corrupção é o abandono das questões públicas em favor do ganho privado. É a vitória da individualidade e da desigualdade sobre a igualdade e o universalismo. É preciso urgentemente resgatar os sentidos de coletividade e luta pela garantia universal dos bens públicos.

 

Publicado na edição 1122 – 19/07/18

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