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Amor aos inimigos

Para os judeus, valia a velha máxima, ‘olho por olho, dente por dente’, ou seja, eu te retribuo na mesma medida. Se você fala bem de mim, eu vou falar bem de você; se você me ajuda, eu também vou ajudar você; se você me critica, eu também vou criticar você. Na mesma medida em que você me ama, eu vou te amar; na mesma medida em que você me odeia, eu vou te odiar. Eu vou bater na mesma proporção que você me bateu; eu vou te desejar o mal na mesma proporção que você me desejou. O que parece ser algo anormal foi na verdade, um grande avanço, porque antes desta lei, a retribuição era desproporcional. Esta lei ‘olho por olho’ tinha sido imposta para defender o réu das vinganças sem limites, das represálias brutais, dos excessos nas punições. Quem fosse pego em flagrante tinha que pagar não só pelo seu crime, como também por todos os outros crimes cujos responsáveis não tinham sido descobertos.


A vinda de Jesus ao mundo mudou completamente esta lei, levando-a à sua plenitude. Ele mesmo disse, ‘eu não vim acabar com a lei, mas vim para dar pleno cumprimento dela’. A nova lei, apresentada por Jesus para os seus discípulos e todos os seus seguidores, supera a lei de Talião, ‘olho por olho, dente por dente’. Jesus vai mais longe dizendo que se alguém te bater na face esquerda, ofereça a direita, nunca revide nenhuma ação violenta vinda da parte do teu próximo. Uma grande novidade, que abalou as estruturas da época, e criou nos defensores da antiga lei, uma verdadeira resistência. Os judeus, no máximo concordavam em perdoar os da sua raça, mas isso não valia para os pagãos. Estes deveriam sofrer as sanções por causa dos seus erros cometidos.

Para Jesus, o verdadeiro amor sempre perdoa, não guarda mágoas, nem ressentimentos, nem deseja a vingança. Quem ama não odeia, não deseja o mal do outro, muito pelo contrário, está sempre pronto para ajudá-lo a mudar de atitude. A grande novidade de Jesus é o ‘amor aos inimigos’. Ele prega o amor àqueles que te desejam o mal, falam mal de ti, te destroem com palavras ou ações. O amor a Deus só é verdadeiro quando se reflete no amor incondicional, sem medidas, mas, sobretudo, àqueles que querem a tua ruína. É a esses que devemos amar e perdoar, e nunca ameaçar revide, ou prometer vingança. É realmente uma verdadeira curva fora do nível, ou seja, é uma atitude sobrenatural. Humanamente tendemos a dar o troco na mesma medida, seja ele bom ou ruim. Sobrenaturalmente, sempre pagamos o mal com o bem, a destruição com a construção, o negativo com o positivo, as palavras violentas com palavras de ternura e compaixão.

A novidade da boa nova do evangelho passa obrigatoriamente pelo amor aos inimigos, do contrário, não compreendemos a mensagem de Jesus e não podemos assumir o nome de cristão. Uma coisa bem simples e fácil é elevar o nome de Jesus, até gritá-lo aos quatro cantos do mundo, mas isso nem sempre quer dizer que eu o amo e o compreendo. Como disse ele mesmo, ‘não é quem diz Senhor, Senhor que entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai’. E qual é a vontade principal do Pai, revelada em Jesus? Um amor compassivo, misericordioso, cheio de ternura, que ama a todos, que quer o bem a todos, mas, especialmente, ama e deseja o bem dos seus inimigos. Se esse não for o nosso comportamento, talvez ainda estejamos agindo de acordo com a lei de Talião, ou pior, de modo desproporcional e selvagem. Somente o ‘amor aos inimigos’ nos torna verdadeiros cristãos.

Publicado na edição 1200 – 20/02/2020

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