Compartilhe esta notícia

Ao iniciar esta reflexão, meu pensamento vai até as margens do mar da Galileia, que tive a imensa alegria de conhecer, e ali vejo Jesus atraindo as multidões com o seu jeito de ser, de falar, acolhendo a todos com alegria e muita compaixão. Ele surge como um verdadeiro fenômeno, que atrai e aproxima e cura, traz esperança àquele povo Galileu tão pobre, sofrido e abandonado. Um jovem cheio de dinamismo, entusiasmo, movido por um amor imenso, capaz de arrastar multidões para ouvi-lo. Tudo isso, com certeza, leva o povo a crer que Jesus era realmente o Messias esperado, enviado por Deus, para trazer novos tempos para o povo de Israel. Além do povo, assim também provavelmente pensavam os apóstolos, entusiasmados com o mestre. Viam nele um Messias poderoso, triunfante, forte e vencedor. Segui-lo parecia ser algo tão agradável, prazeroso e atraente.

No entanto, ao perceber esta visão distorcida da sua missão, Jesus desfaz todos estes sonhos irreais, estas ilusões e apresenta as condições para o seguimento. De certo modo, ele frustra todas as expectativas colocadas em torno dele, de um messianismo feito de força e poder. Muito pelo contrário, as suas palavras ecoam como um apelo a uma conversão plena e total, a uma mudança radical de vida: ‘se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz a cada dia e siga-me’. Uma verdadeira espada a cortar o coração do povo que o seguia e especialmente dos apóstolos, que, num primeiro momento, buscavam ocupar os primeiros lugares. Jesus foi simplesmente derrubando por terra estes sonhos e apresentando as condições, bem mais exigentes, daqueles que realmente quisessem segui-lo.

Renunciar a si mesmo não significa negar-se, diminuir-se, colocar-se como o pior dos seres humanos, ou como se diz hoje em dia, enaltecer a baixa auto-estima. Nada disso! Jesus quer ver as pessoas plenamente em pé, livres, fortes interiormente, bem resolvidas, resilientes, animadas, entusiasmadas, cheias de vida. No entanto, tudo isso não tem função de si mesmo, de modo egoísta e individualista, mas em prol do outro, do próximo. A vida para Jesus só tem sentido quando colocada a serviço do irmão, sobretudo, daquele mais sofrido e abandonado. Ele veio para resgatar a vida, e ele mesmo disse: ‘quem quiser salvar a sua vida sem mim vai perdê-la; quem perder a sua vida por causa de mim vai ganhá-la’. Perder a vida significa não pensar em si mesmo em primeiro lugar, em tudo aquilo que faz, na sua promoção e nos seus desejos egoístas, mas em colocar o seu tempo, seus bens, seus anseios, em prol de um mundo melhor, mais humano e da construção do Reino de Deus.

Num mundo tão cheio de egoísmo, de projetos individualistas, sem se importar com o outro, pensando apenas em suas vantagens pessoais, o evangelho de Jesus torna-se um grande desafio. O verdadeiro amor sai de si mesmo, do fechamento em seus projetos, e se coloca a serviço dos outros. A alegria pura e sincera é aquela que brota de um coração capaz de amar, de se doar, de pensar no outro em primeiro lugar. Que deixa os seus desejos egoístas de lado, para servir em vez de ser servido, perdoar em vez de ser perdoado, compreender em vez de ser compreendido, escutar em vez de ser escutado. De fazer tudo na gratuidade, sem pensar em trocas ou recompensas. A grande recompensa está no rosto do outro, estampado de alegria pelo bem recebido. Que nobre e excelsa a missão de quem segue Jesus! Seguir Jesus é uma escolha livre, porque ninguém é obrigado a segui-lo. Mas, uma escolha que exige renúncias, colocando toda a sua vida a serviço do bem dos outros e da sua felicidade.

Publicado na edição 1227 – 27/08/2020

Compartilhe esta notícia
Fechar anúncio