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Homossexuais que se assumiram e aprenderam a lidar com o preconceito


Ninguém escolhe ser gay, mesmo assim, é julgado pela sociedade, excluído pelos amigos e rejeitado pela família. Esse preconceito desenfreado faz com que muitos homens e muitas mulheres não tenham coragem de assumir a sua sexualidade, o que os torna infelizes. Declarar-se abertamente gay, lésbica, bissexual ou transexual é um grande desafio, já que boa parte da sociedade ainda é homofóbica. Para a comunidade LGBTI, a necessidade de mudar esse pensamento, de combater a discriminação e enaltecer a luta por direitos, precisa estar sempre em evidência. Um momento importante de fazer a sociedade se lembrar disso aconteceu do domingo, 28 de junho, quando se comemorou o Dia Internacional do Orgulho LGBTI. Para falar sobre essa luta contra a homofobia, o Jornal O Popular conversou com um homem e uma mulher, que superaram os medos de revelar suas condições para suas famílias, mas acabaram sendo aceitos e respeitados pela sociedade.

A advogada Andressa Costa Barbosa, de 35 anos, casou no civil com a promotora de vendas Priscila, e enfrentou o preconceito da própria avó quando contou a ela que era lésbica. “Fui criada pela minha vó, e quando revelei minha condição sexual pra ela, não aceitou e nós ficamos 10 anos sem se falar, só recentemente ela veio até mim e pediu perdão, foi muito emocionante. Este foi o pior preconceito que tive que enfrentar, o da própria família, de estranhos não posso dizer, mesmo porque, não costumo expor muito a minha vida”, relata. A advogada disse ainda que demorou para assumir sua homossexualidade, principalmente porque era evangélica. “Pra mim foi muito difícil entender esse universo, que parecia tão distante”.

Andressa casou em Araucária e a festa aconteceu em uma churrascaria de Curitiba. Com exceção de dois convidados, que não puderam ir por problemas pessoais, todos os demais compareceram. “Nós achamos que muitas pessoas não iriam em razão de toda essa questão de preconceito. Mas estávamos erradas e nos surpreendemos com a forma como nos acolheram e comemoram com a gente”, conta.

Apesar de ser bem resolvida com sua homossexualidade, Andressa lamenta que o mesmo não acontece com muitas pessoas, por isso, destaca a importância de se discutir a implantação de políticas públicas voltadas ao público LGBT. “As ações e programas são muito importantes no sentido de garantir a efetividade da proteção desse segmento. Porém, em Araucária pouco ouvimos falar a respeito disso”, lamentou.

Eduardo Schamme, 22 anos, também é advogado, mestrando da PUC/PR, professor de Direito Constitucional, confeiteiro, assessor legislativo na Câmara de Araucária. Ele assumiu sua sexualidade, sem medo, teve o apoio incondicional da família, e lida muito bem com a questão do preconceito. “Gosto de Adele e Elza Soares, curto filmes de ficção científica e amo Harry Potter. Ah, e sou gay! Pois é, desde muito pequeno eu já sabia que eu era, digamos, diferente dos demais meninos da minha idade, e já sofria o estigma da ‘criança viadinha’, a que brinca com bonecas, coloca toalha no cabelo, faz ballet e assim por diante. Na adolescência as coisas começaram a piorar, afinal, meus amigos tinham várias namoradinhas e, mais uma vez, eu me sentia completamente diferente. Também exercia minha paciência para aguentar aquela infame pergunta nos almoços de família: E as namoradinhas?”, relembra.

O advogado e confeiteiro Eduardo Schamme sempre lidou bem com a questão do preconceito

O advogado até brinca com a questão de não ter nenhum receio em se assumir. “Estamos no país que mais mata LGBTs no mundo, e quando me perguntam se tenho medo de ir viajar para o oriente médio e acabar sendo preso por ser gay, eu logo respondo que não, que medo eu tenho de sair nas ruas de Araucária ou Curitiba de mãos dadas com meu namorado e acabar apanhando por ser quem sou. Felizmente tenho uma família que me aceita e isso faz toda a diferença, pois, em que pese eu ter uma série de privilégios, a homofobia ainda se faz presente no meu dia a dia. Só que comigo ela acaba ganhando ares de brincadeirinha, porque já não é mais tão aparente, ocorre em forma de piadinhas, indiretas, sorrisos de canto de boca, entre outras coisas, e não vale a pena se estressar. O fato de saber que eu possuo um refúgio é fundamental. Sou um privilegiado, mas infelizmente sabemos que a maioria não é, e enfrenta a perseguição dentro da própria casa”, destaca.

Para ele, o machismo estrutural da nossa cultura faz com que as pessoas criem seu perfil ideal de homem, onde qualquer variação é vista como desvio de conduta, e logo é reprimida. Eduardo diz que conhece histórias de meninos que foram espancados por seus próprios pais até ‘virarem homens’. “A homofobia se disfarça de preocupação, mas na verdade é apenas ódio, e é preciso que a sociedade entenda que ser gay é só um aspecto das nossas vidas, não sou melhor ou pior profissional por ser gay, não sou pior ou melhor filho por ser gay, não sou melhor ou pior cidadão por ser gay. Discutir homofobia não deveria ser coisa para LGBT’s, mas sim, para os héteros que a praticam. Infelizmente, a homofobia tem ceifado centenas de vidas todos os anos, e é preciso que se entenda que o direito de amar é universal e ilimitado, religião ou coisa alguma, sob nenhuma condição, pode nos privar disso”, compara.

Com relação às políticas públicas existentes em Araucária, o advogado diz que, apesar de a cidade ter crescido nos últimos anos, ainda mantém um perfil conservador de cidade colonial, onde todo mundo se conhece, e em determinadas famílias, ser gay vira um escândalo sociopolítico. “Tenho amigos em Araucária que não podem se assumir sob pena de serem expulsos de suas casas, as fachadas de famílias de comercial de TV fazem com que muitos aqui nessa cidade não possam dizer quem amam, não possam se expressar conforme desejam, porque podem desarranjar as estruturas sociais tão bem forjadas ao longo das décadas. Devemos ter orgulho por ser quem somos, sobrevivemos a santa inquisição, aos horrores do nazismo, ao hospital colônia, sobrevivemos a cada tapa, a cada xingamento, construímos a nossa própria sorte sem nunca abaixar a cabeça. Não existe cura para o que não é doença, é justa toda forma de amor. Orgulhe-se”, pontua.

O que a cidade oferece

Quando se fala em ações e programas voltados ao público LGBT, não tem como não mencionar os serviços de saúde e assistência social ofertados pelas estruturas públicas. Em Araucária por exemplo, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), assim como toda rede de proteção do município, pode ouvir, orientar e encaminhar denúncias de preconceitos contra homossexuais, porém, o órgão mais apropriado para recebê-las nesse momento de pandemia, é o Disque Direitos Humanos.

O Disque 100 é um serviço de proteção nacional, que possibilita conhecer e avaliar a dimensão da violência contra os direitos humanos e o sistema de proteção, bem como orientar a elaboração de políticas públicas. O sistema acolhe denúncias que envolvem violações de direitos de toda a população, especialmente os Grupos Sociais Vulneráveis, como crianças e adolescentes, pessoas em situação de rua, idosos, pessoas com deficiência e população LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). A central funciona diariamente, das 8h às 22h, inclusive nos fins de semana e feriados. As denúncias recebidas são analisadas e encaminhadas aos órgãos de proteção, defesa e responsabilização, de acordo com a competência e as atribuições específicas. Outra opção também é procurar a Delegacia de Polícia Civil para registrar um boletim de ocorrência.

Texto: Maurenn Bernardo

Foto: divulgação

Publicado na edição 1219 – 02/07/2020

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