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“Não deveria ser consciência humana?”

Quando se pretende manter um povo subjugado a melhor ferramenta é roubar-lhe a consciência. Quanto menos ele souber de sí mesmo e dos seus iguais, menor será a chance de rebeldia. Os rebeldes não são bem-vindos, são tidos como perigosos, pois questionam, influenciam e não temem levantar-se contra um sistema injusto. Antes mantê-los inconscientes, dispersos e autofágicos do que correr o risco de vê-los fortalecidos e com poder de fala.

Mesmo após 388 anos de escravidão negra, séculos de segregação e animalização do povo negro, mesmo com tantas estáticas incontestáveis sobre a triste realidade dessa população, há sempre alguém que se sente muito esperto e disposto a perguntar “Quando vai ser o dia da consciência branca? Não deveria ser consciência humana? ”.

Perguntar quando se tem dúvidas é sempre legítimo, contudo, questionar apenas na intenção de desqualificar, de desrespeitar o contraditório é sempre sinal de pequenez e pouca inteligência.

A Consciência que buscamos não tem a ver com o outro, é sobre nossa própria existência, nosso pertencimento étnico, nossa ancestralidade, nossa trajetória enquanto povo de luta e de resistência. Agora, se você já está no nível de “Consciência Humana” então já posso parar de explicar, pois seu senso de humanidade já deve ter denunciado que durante séculos a população negra foi violentada em todos seus direitos, não se contentaram em ferir a pele preta, tentaram apagar nossa memória, demonizar nossa fé, estigmatizar nosso corpo. Nos queriam cativos, criados mudos, serviçais domesticados ou ainda capitães do mato, cortejadores da casa grande, pelegos de sinhozinho. Mas quanto maior o nível de consciência menor a chance de isso acontecer.

Nossa consciência é o elo que nos liga mesmo após a diáspora, é a gratidão pela existência de Zumbi e Dandara, de Milton Santos, André Rebouças, Machado de Assis, de Tereza de Benguela, de Aleijadinho, Ruth de Souza, Abdias Nascimento e tantos outros e outras que contribuíram imensamente para nosso país e para nossa existência.

Ubuntu, eu sou porque nós somos e a consciência nos conecta para além do estado físico, nos afeta para além do toque, nos encoraja para seguir existindo.

Portanto, não se ofenda com nossa consciência negra, ou se ofenda se assim preferir. Nós seguiremos, cada vez mais conscientes.

Publicado na edição 1190 – 21/11/2019

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