Em comunicação costuma-se dizer que “não vale o que você diz e sim o que os outros entendem”. Tal máxima, de cara, me obriga a pedir desculpas a todo e qualquer morador da área rural que eventualmente tenha ficado chateado com o meu texto da semana passada.

Várias pessoas me procuraram, amigas minhas moradoras da área rural, outras que eu não conheço, mas que acompanham meus textos e ainda algumas que foram apresentadas as minhas opiniões por meio daquela Coluna. Todas me disseram que o texto soou preconceituoso a quem reside no campo. A palavra preconceito não existe em meu vocabulário e por isso ela me assusta. Vivemos num mundo com muitas brigas em razão da intolerância, seja ela religiosa, étnica, política, racial, entre tantas outras.

Eu, filho de uma zeladora e de um pedreiro, financeiramente pobre, que sempre frequentou escolas públicas, ex-aluno de uma faculdade pública, morador e apaixonado por uma cidade que precisa superar muitas mazelas sociais, sou um soldado deste município e brigo diariamente, com as armas que tenho, para que possamos construir uma Araucária capaz de oportunizar condições para que cada um e todos os seus moradores se desenvolvam socialmente e economicamente.

Dito isto, gostaria de tentar ser mais claro no que tentei dizer na semana passada com relação ao que penso sobre a readequação das linhas que atendem a área rural. Defendi a medida. Considero-a necessária, tendo em vista a falta de padronização que elas ganharam ao longo das últimas décadas. Deixo claro, no entanto, que a defesa foi pela readequação e padronização e não pela extinção. A área rural precisa, mais do que isso, tem o direito e o poder público à obrigação de atender essa região com transporte coletivo. É óbvio que, como disse naquela oportunidade, essa adequação causaria transtornos e geraria revolta, mas precisava ser feita. Agora, com a padronização restabelecida, acredito eu, será possível verificar eventuais casos em que trajetos precisarão ser alterados, estendidos, entre outros.

Do mesmo modo, como disse naquela oportunidade, parte dos problemas que existe hoje no atendimento das demandas da área rural é fruto sim do crescimento inadequado da região. Está havendo sim parcelamento indevido do solo rural. Todos sabemos que existe uma metragem mínima para os terrenos do interior, justamente porque a razão de existir do campo é sim a agricultura, a pecuária e o extrativismo. Assim como todos sabemos que em Araucária há gente vendendo terrenos minúsculos no campo por meio de contratos de gaveta e/ou averbação de fração ideal do solo. Foi a quem faz isso que dirigi a expressão “caráter duvidoso”, já que tal prática não é legal (do ponto de vista de legalidade). É só caminharmos pelo interior que veremos várias pequenas vilas, gente que foi residir no campo não por opção e sim pela falta dela, mas que continua tendo sua vida toda atrelada à cidade.

No mais, algumas pessoas entenderam que meu texto era afirmativo ao dizer que quem mora no campo tem que necessariamente viver dele, que os filhos dos agricultores não podem escolher serem médicos, engenheiros, astronautas e tantas outras profissões. Ora, é claro que pode. Eu particularmente acredito que todos podem ser o que quiserem nesta vida. De novo, o que quis dizer é que há sim muitas pessoas vindo trabalhar diariamente na área urbana, sobrecarregando o transporte coletivo, não por opção e sim porque a atividade agropecuária já não é mais capaz de suprir as necessidades de suas famílias. E que isto precisa ser revisto.

O poder público precisa criar condições para que quem tenha propriedade no interior sobreviva dela e que não precise se deslocar dezenas de quilômetros todos os dias para trabalhar em algo que no fundo não lhe satisfaz. Neste sentido, é bom ressaltar, como já ressaltei no texto anterior, é ilógico que a Secretaria de Agricultura tenha um orçamento anual muitas vezes inferior ao que a Prefeitura gasta com transporte coletivo para baldear moradores da área rural para a urbana diariamente. Aqui, de novo, o termo baldear não é pejorativo a quem mora no campo. Utilizo-o porquê, convenhamos pegar um ônibus lotado, muitas vezes sem nem conseguir vir sentado, não é transporte é baldeação.

Ressalto ainda que, o que me deixa feliz na celeuma que meu texto acabou criando é ver que a população do campo está sim vivendo esta cidade e pronta para defender o que é seu direito. Espero que o prefeito desta cidade tenha acompanhado as críticas que recebi. Isto porque, embora eu considere adequada a readequação, a minha parte neste processo todo foi apenas opinar. Quem deu a ordem para mexer nas linhas não fui eu e sim o senhor Hissam Hussein Dehaini.

Sugiro também a todos que se envolveram nesta discussão que aproveitemos o ano de 2017, que demonstremos o mesmo ímpeto nas discussões que se avizinham para revisão do Plano Diretor da cidade. Talvez seja a hora de ampliarmos o perímetro urbano de Araucária, hoje estabelecido pela lei municipal 2163/2010. Talvez seja hora de criarmos mais distritos rurais e neles estabelecer áreas urbanas. Hoje existe apenas uma área urbana estabelecida num distrito rural, que é o de Guajuvira, estabelecido pela lei municipal nº 2491/2012. Esse tipo de legislação permite que o solo rural desses locais seja ocupado de outras formas, permite o desenvolvimento do comércio destes locais. Precisamos pensar nisso. Da mesma maneira, talvez precisemos rever a política de transporte escolar rural neste Município, já que – cada vez mais – é preciso garantir locomoção digna aos estudantes, que hoje precisam utilizar o transporte coletivo normal, quando seria possível estipular em lei, prever em orçamento e instrumentos do gênero trajetos e horários específicos para atender o filho do colono que vai cursar, por exemplo, uma faculdade.

Para que tudo isso seja possível, no entanto, é preciso ter a mesma disposição que as pessoas tiveram para – corretamente – questionar meu texto também participar de órgãos de controle social, audiências públicas, sessões da Câmara, entre outros.

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