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“Não tenhais medo” (Mt 14,27).


O início do cristianismo foi marcado por inúmeras perseguições aos primeiros cristãos, e muitos, inclusive, morreram mártires, dando a sua vida pelo evangelho. Foram tempos altamente difíceis, levando inúmeros deles a se perguntar se valia a pena ou não continuar sendo cristãos. Outros, no meio de tanto sofrimento, chegaram a duvidar da presença de Jesus entre eles. E é exatamente neste contexto que surge Jesus, dentro de uma barca, no meio mar, atingido por uma grande tempestade. A barca parece que vai afundar e Jesus dorme tranquilamente como se nada estivesse acontecendo. Os discípulos acordam o Mestre, porque estão desesperados, e lhe dizem: ‘não te importa que todos afundemos?’ e ele então lhes responde: ‘Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?’

Vamos tentar compreender o significado desta passagem bíblica. A barca é a comunidade cristã; o mar é a realidade agitada em que o cristianismo está inserido; a tempestade são as perseguições e as mortes, criando um número sem fim de mártires, que dão a sua vida pelo evangelho. Mas a realidade é tão difícil, tão dolorosa, que os próprios discípulos pensam que Jesus os abandonou, está dormindo e não se importando com todo esse drama por eles vivido. Jesus então se manifesta claramente ao lado deles, na certeza de que a barca não vai afundar e a tempestade vai passar. Para tanto, ele pede que eles renovem a fé Nele, porque é ela que vai acalmar a situação e tirá-los do medo que os aflige.

O papa Francisco usou este texto para falar da realidade atual que estamos vivendo. A barca é a humanidade inteira, vivendo o drama provocado pelo Coronavírus. O mar é este planeta terra tão agitado por ventos contrários e a humanidade está com a sensação de que o barco vai afundar. A impressão é que Jesus está dormindo, sem se importar com todo drama vivido pelos povos de todas as partes do mundo. Gritamos por socorro, e ele então nos acalma e pede que renovemos a nossa fé na sua presença, na certeza de que ele jamais nos abandonará. Fomos nós que nos afastamos Dele, criamos um mundo onde o que conta é o lucro desmedido, numa ganância sem escrúpulos e sem se importar com as necessidades do próximo. Diz o papa: ‘não nos detivemos perante teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentimo-nos em mar agitado, imploramos-Te: ‘Acorda, Senhor!’

Diante desta realidade tão cinzenta, de tanto medo, pânico, desestabilidades, é a hora de conversão e mudança de atitude. Diz o papa: ‘é tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros. Quantas pessoas dia a dia aceitam exercitar a paciência e infundem esperança, tendo a peito não semear o pânico, mas corresponsabilidade. A oração e o serviço silencioso: são as nossas armas vencedoras’.

A tempestade vai passar, com certeza, mas é preciso superar todo o medo que toma conta de cada um de nós. E neste momento, ser homem e mulher de fé, significa obedecer às orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e ficar em casa. O isolamento social é o único modo de superar esta pandemia que assusta e deixa o mundo inteiro com medo de afundar no meio desta tempestade. Cuidar de si mesmo é fundamental para superarmos esta situação tão difícil na história da humanidade. Não tenhais medo, é o que nos pede Jesus.

Publicado na edição 1206 – 02/04/2020

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