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O milagre da partilha


A ganância sempre esteve muito presente na vida de todos os povos em todos os tempos da humanidade. É a sede de sempre ter mais e mais, acumular, sem pensar no bem dos outros, como se tudo girasse apenas em torno de si mesmo. O que importa é estar bem, sem se importar com o outro, com a sua dor e sofrimento. Isso acaba gerando uma total indiferença com o próximo, com as suas necessidades, pois, o mais importante é levar vantagem em tudo. Esse jeito de ser e de viver, de conduzir a vida, é fruto de um egoísmo exacerbado, que ignora aquele que está ao nosso lado, com suas dores e sofrimentos. Na gíria se diz, ‘cada um por si e Deus por todos’, para expressar esse jeito desumano de ser, se aproximando de um modo selvagem, sem sentimentos e sem nenhuma empatia.

Jesus veio ao mundo para pregar o Reino de Deus, tão distante e diferente do reino dos homens. Para ele, todo ser humano é importante, sobretudo, os mais pobres, carentes, marginalizados e necessitados de pão e de justiça. O anúncio da boa nova passa por um coração cheio de compaixão, ou seja, que sente profundamente a dor do irmão. A pessoa fria, calculista, arrogante, prepotente, auto-suficiente, não é capaz de entrar no mundo do outro. Jesus se compadece, ‘sofre com’, se preocupa em buscar uma solução ao problema do outro. Seu coração está inquieto enquanto não vê o sorriso de alguém, porque sua fome e sede foram saciadas. Mas o que Jesus fez de tão extraordinário? Será que ele impôs as mãos sobre o pão e o mesmo cresceu e assim matou a fome de cinco mil pessoas?

Não! O grande milagre realizado por Jesus foi tocar o coração das pessoas, para deixarem seu egoísmo, seu individualismo de lado, pensando no bem comum. Ele não é um mágico e nem um milagreiro, como vemos por aí. E, na verdade, os poucos milagres que realizou na verdade foram sinais do reino. Tocar o coração do ser humano e fazê-lo sair da sua visão egoísta e fechada em si mesmo, foi o milagre extraordinário realizado por Jesus. Quando alguém se sente tocado pela dor do outro, não sossega enquanto não lhe oferece uma ajuda consistente e libertadora. Este foi o milagre da partilha, que oportunizou comida e bebida para todos e com sobras ainda. Que maravilha! Que lição de vida!

A eucaristia é compromisso de amor para com os irmãos. Quem recebe Jesus na comunhão de modo individualista, apenas emocional, não compreendeu a grande lição de Jesus deixada através de tantos gestos de amor e de solidariedade. Pelo contrário, aquele pão deve nos ensinar a partilhar, a ser solidário, a pensar no outro, a sentir a dor do irmão e buscar meios para ajudá-lo. Neste tempo de pandemia, onde tantas pessoas perderam seus empregos; onde tantas famílias passam necessidades; onde tantos trabalhos informais foram momentaneamente extintos; onde tantas empresas fecharam suas portas e demitiram os seus funcionários, Jesus pede de cada um de nós, solidariedade e partilha.

Onde existe partilha, tem para todos e ainda sobram alguns ‘cestos’. O acúmulo é que gera desigualdade, fome, miséria, falta para a maioria e sobra absurda para alguns poucos. Jesus, com o seu jeito de ser, de falar, de agir, tocou o coração de tantas pessoas a partilharem, pensando naqueles menos favorecidos. Este foi o grande milagre realizado por Jesus no deserto, onde uma multidão tinha fome e sede. Todos foram saciados e ainda teve sobra. Oxalá, como seguidores de Jesus, aprendamos a abrir o nosso coração, partilhando com os outros, aquilo que gratuitamente recebemos de Deus. Onde tem partilha, tem para todos.

Publicado na edição 1223 – 30/07/2020

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