Quando falamos de temor a Deus, num primeiro momento podemos ter uma ideia errônea, como se Ele fosse um carrasco que espera o nosso erro para nos castigar. Confundimos temor com medo, e, agimos então muito mais para fugir do castigo do que para sentir e obter a graça de Deus. Constantemente encontramos pregadores que usam palavras fortes, com tom emocionado, para tocar no coração das pessoas, falando de um Deus que se vinga, ou, como ouvi diversas pessoas afirmarem: ‘Deus não mata mas achata’. O que significa então temor a Deus?

Nada mais é do que reconhecermos a sua soberania e o seu poder sobre todas as coisas. Quando o negamos, nos tornamos autossuficientes, como se tudo dependesse do nosso esforço e das nossas capacidades. É reconhecer que Ele é o Senhor do universo, o Criador, Aquele que tudo governa e conduz. Ele está acima de tudo e em tudo que fazemos, devemos sempre nos curvar diante da sua palavra e dos seus ensinamentos. Deus é o Deus da vida e da liberdade e, tudo aquilo que mata e escraviza, é contrário à vontade Dele. Não basta evocar o seu nome, gritar bem alto o seu poder, se, depois, no concreto da nossa existência, destruímos o outro com palavras, gestos, ações e o humilhamos pelo cargo que exercemos.

O temor a Deus está profundamente ligado ao amor. Amar a Deus sobre todas as coisas é coloca-lo no centro da nossa vida. Amar a Deus com todo o nosso coração, nossa alma e nossas forças, significa que tudo procede Dele e deve convergir para Ele. Quem ama realmente a Deus, ama o seu próximo, criado à sua imagem e semelhança. É mentiroso aquele que diz que ama a Deus que não vê, e odeia o próximo que vê. O meu amor a Deus se espalha no encontro com o outro, no modo como o acolho, como me dirijo a ele, na escuta atenta e nos gestos concretos de compaixão, misericórdia, respeito e solidariedade.

O amor a Deus se manifesta no profundo respeito e defesa da natureza. Todo o universo é sua criação, e deve ser conservado e não destruído. Quando o homem acaba com as matas, envenena os rios, polui o meio ambiente por causa do lucro e da ganância, está se distanciando do verdadeiro rosto de Deus. Não bastam palavras bonitas, emocionantes, mas aquilo que realmente demonstra o nosso temor e amor a Deus, são os nossos gestos concretos em prol do próximo e da mãe natureza.

O mundo precisa de Deus, essa é uma grande verdade e uma grande urgência. Quanto mais o homem se distancia da sua presença, mais ele se acha dono do universo e tudo justifica, sem escrúpulos e temor. Acaba não pensando nas gerações futuras, se achando o senhor de tudo, como se tudo fosse sua propriedade única e exclusiva. E quantos, para defenderem seus interesses egoístas, matam o seu próximo e destroem a natureza. Esquecem que Deus é o Senhor e soberano de tudo o que existe e se move sobre a terra!

O temor a Deus nos coloca diante da nossa realidade humana, no sentido do húmus, humildade, terra, pequenez e fragilidade. Isso só será possível, se o nosso amor a Ele estiver acima de tudo, de todas as coisas por Ele criadas e gratuitamente colocadas a nosso serviço. Somos apenas administradores dos bens que Ele nos deu, para a vida e a liberdade de todos, e, não apenas de alguns. E isso significa saber partilhar e não acumular de forma gananciosa; dividir as decisões e não agir de modo arbitrário e autoritário. Isso sim é temor e amor a Deus.

Publicado na edição 1192 – 05/12/2019