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O uso dos bens materiais

O tema do bom uso dos bens terrenos preocupava as primeiras comunidades cristãs que provinham do meio hebraico, que considerava a riqueza a maior expressão da bênção divina. Não se pode dizer que as riquezas sejam más, porque são dons de Deus. O problema está no seu uso e no fato de que as riquezas, geralmente, prendem as pessoas de tal maneira que se esquecem dos bens melhores, que são os espirituais. Uma das características do cristão é saber usar as coisas que passam em função daquelas que não passam e são eternas.


O materialismo é o apego exagerado às coisas materiais, ao dinheiro e ao prazer do luxo. É colocar os bens terrenos em primeiro lugar, acima de Deus, acima de tudo. Como se a vida girasse em torno do dinheiro, deixando de lado o mundo espiritual. Este materialismo é condenado muitas vezes no Antigo Testamento. E também por Jesus. São Paulo adverte contra quem torna seu ventre o próprio Deus. Mas também não podemos odiar e destruir os bens porque seria odiar as criaturas de Deus. Quem despreza os bens que Deus criou despreza o próprio Deus. A lição de Jesus está no nosso relacionamento com os bens.

Erramos quando colocamos no dinheiro a finalidade de nossa vida. Agir assim faz com que todos os princípios sejam deixados de lado, porque a única coisa que interessa é o bem material, não importa como. Daí advém a corrupção, o desvio, o engano, porque nos tornamos cegos diante do Criador de tudo, o próprio Deus, apegados às coisas deste mundo. Fomos feitos por Deus e para Deus. Somos dele. Somos propriedade de Deus. A razão e a vontade que dele recebemos não nos dá o direito de esquecer que ele é o Senhor.

Se nós fazemos do dinheiro a razão da nossa vida, nós o transformamos em ‘nosso ídolo’, colocando Deus de lado. Ele torna-se um falso deus. Por isso a Escritura nos ensina que devemos amar a Deus acima de todas as coisas. O serviço a Deus e o serviço ao dinheiro têm lógicas diferentes de ação: o serviço a Deus se move no plano do amor, da doação, da generosa fraternidade; o serviço ao dinheiro, no plano do proveito próprio, da competição, do ter e do dominar.

O grande pecado está em transformar os bens deste mundo, especialmente o dinheiro, na essência da nossa vida, como se ele fosse a razão da nossa existência. Esquecemos assim que o Criador, Deus, está acima de todas as coisas mundanas. O dinheiro está para o nosso uso, para o nosso bem, para termos uma vida digna, mas ele não pode nos escravizar, a ponto de esquecermos e deixarmos de lado a dimensão espiritual. Quem pensa somente nas coisas deste mundo, sente-se incapaz de partilhar, de ser solidário, porque apegado, ignorando que tudo provém de Deus e é dom de Deus. Tudo pertence a Ele, e que um dia todos nós voltaremos a Ele.

Na parábola do Semeador Jesus mostra que as riquezas e os prazeres sufocam a Palavra de Deus. Distanciam o ser humano do rosto de Deus, pensando somente em si mesmo, ignorando as necessidades do próximo. A palavra de Deus nos ensina a ser desapegados, com generosidade, caridade e misericórdia com os mais sofredores deste mundo. O povo tem um belo provérbio que diz: ‘quem dá aos pobres empresta a Deus’. É isto que Deus nos pede, ou seja, saber usar os bens e partilhá-los com aqueles que mais necessitam. Quando partilhamos, fazemos a experiência do verdadeiro Deus, que criou o mundo para a felicidade de todos.

Publicado na edição 1180 – 19/09/2019

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