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Pequenas e médias escolas falam da dificuldade em se manter em meio a crise do novo coronavírus


Escolas particulares de educação infantil sofrem por causa da crise provocada financeira provocada pela pandemia da Covid-19. A interrupção das aulas presenciais, a incerteza do retorno, a inadimplência no pagamento de mensalidades e o cancelamento de matrículas por parte dos pais, são alguns dos motivos que podem levar as instituições ao encerramento das atividades. E esse drama vivido pelos donos de escolas privadas não fica restrito ao Município, atinge milhares de instituições em todo o país. Segundo dados da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), 80% das instituições particulares de educação infantil podem ser forçadas a fechar as portas em definitivo por causa da evasão causada pela pandemia.

Para mostrar a realidade das instituições privadas locais, o Jornal O Popular conversou com proprietários de escolinhas, que demonstraram grande preocupação com a situação atual. Eles nos contaram sobre as medidas que tiveram que adotar para tentar manter as escolas funcionando. Acompanhe os depoimentos.

Texto: Maurenn Bernardo

Fotos: divulgação e Marco Charneski

Publicado na edição 1222 – 23/07/2020

Vera Lucia Beserra

Escola Kadoshi

“A Kadoshi, que atende do berçário ao 5º ano do ensino fundamental, parou em 20 de março. De imediato, compreendendo a situação dos pais e tentando superar o cenário difícil, concedemos um desconto de 30% sobre as mensalidades, bem como suspensão de pagamentos de material didático e outras taxas. Ainda assim, percebemos a dificuldade de alguns em efetuar o pagamento. Sabemos que esse é um momento difícil para todos, mas para manter os professores, dependemos desses valores. A escola tem feito tudo que está ao seu alcance para ajudar, mas a situação é complicada. Tivemos que fazer algumas rescisões contratuais, lamentavelmente tivemos que demitir funcionários. Se as aulas não retornarem logo, a situação tende a piorar. Sabemos que o tempo é de cuidar da saúde, não queremos de forma alguma colocar nossos alunos em risco, mas não está sendo fácil para as escolas. Para manter a Kadoshi em atividade, todos os nossos alunos estão sendo assistidos com aulas e atividades online, desde o berçário. O que tem ajudado a nos manter em pé é o incentivo dado pelo governo federal. Graças a isso, conseguimos manter o contrato de trabalho de alguns colaboradores, que tiveram a suspensão e outros a redução na jornada e na remuneração, conforme a MP (Medida Provisória) 936. Não fizemos empréstimos ainda, espero não ter que fazer, pois não sabemos como será o amanhã, se entrarmos em dívida agora, poderemos futuramente sofrer as consequências”.

Carlos Roberto de Freitas

Colégio João Paulo

“O Colégio João Paulo atende todas as séries da educação infantil até o ensino médio regular e EJA. Em março paramos com as aulas presenciais, por força de um decreto, e migramos para as aulas virtuais com presença de alunos. Alguns pais com dificuldades nos procuraram e negociamos as mensalidades, com parcelamentos mais longos e descontos. Os mais receosos pediram transferência dos filhos para a escola pública. Não fizemos demissões, nem redução na jornada de trabalho, uma vez que todos continuam trabalhando normalmente, em home office. Mas a perda de faturamento foi inevitável, uma vez que as despesas não diminuíram. As únicas reduções foram com as contas de luz e água, mas elas representam muito pouco no montante dos custos. Entendemos que os governos têm criado mecanismos para socorrer todos os serviços, mas jamais falam das escolas particulares, que vêm sofrendo perdas enormes. Muitas estão fechando suas portas e sequer são lembradas, mesmo sabendo que o governo jamais daria conta de atender aos estudantes que estão nas escolas particulares e agora migraram para as escolas públicas. Estas instituições não estão recebendo nenhum apoio do poder público, nem da maioria dos pais. Muitos, mesmo podendo continuar pagando as mensalidades, optaram por pedir descontos. Outros estão pagando para babás cuidarem de seus filhos mais do que pagam para as escolas. É uma pena que valorizem muito pouco aqueles que cuidam e ensinam seus filhos durante o ano todo. Ainda temos a inadimplência, que aumentou violentamente. Ninguém quer dinheiro de graça, mas podemos ajudar o poder público como já ajudamos há anos, tirando das escolas públicas os alunos que podem pagar, desafogando o sistema público de ensino. Meios de resolver existem, basta o governo pensar nisso”.

Nelci Pereira de Melo Teixeira

Escola Gênesis

“Minha escolinha atende berçário I e II, Maternal, Infantil 4 e 5 e 1º ao 3º ano do ensino fundamental. Estamos fechados desse o dia 20 de março. Em abril recebemos todas as mensalidades e iniciamos com atividades online. Em maio, a crise deu as caras, e tivemos que dar descontos, começamos a perder alguns alunos, principalmente das turmas de berçário I e II e Maternal. Em junho a situação piorou, os pais pediram descontos maiores, começamos a ter rescisões de contratos e tivemos que dispensar alguns funcionários. Isso sem contar a inadimplência. Muitos alunos também migraram para escolas públicas. O pior de tudo é que ainda estamos sem nenhuma previsão de retorno. Vai chegar o momento em que teremos que fechar as portas, porque tá muito difícil manter a estrutura sem renda entrando. As escolas estão endividadas, e precisamos continuar pagando as contas e os impostos, não tá dando para manter tudo em dia. Ainda se os pais mantivessem seus filhos na escola e continuassem pagando mesmo com desconto, poderíamos ter uma esperança. Precisamos que o poder público olhe pra gente. Não queremos fazer empréstimo, porque nem ao menos sabemos se existirá um amanhã, se as escolas vão existir. Precisamos trazer nossas crianças de volta, mesmo porque, as escolas públicas não terão estrutura para atender tantas crianças que migraram”.

Gisele Cristiane Farias

CEI O Pequeno Aprendiz

“Atendemos do berçário ao Infantil 5. Tivemos que fechar a escola em 19 de março. Em abril já demos desconto de 50% nas mensalidades para que os pais mantivessem as crianças matriculadas. Com a demora na retomada das atividades, aos poucos os pais foram tirando os filhos da escola, muitos porque perderam seus empregos, outros porque foi mais fácil matriculá-los na escola pública. Tive que demitir duas professoras. Tentamos nos adaptar, enviando atividades em papel para as crianças, gravando histórias e vídeos e mandando pelo whatsapp dos pais. Mas com a renda que entra atualmente, não dá pra pagar todas as contas. Ainda não recorremos a empréstimos porque o dono do imóvel me concedeu descontos e com a diminuição do aluguel e menos funcionários, ainda estamos conseguindo nos manter. Tive que renegociar com os fornecedores e prolongar nossas dívidas. Precisamos voltar, mas sabemos que temos que poupar nossas crianças, porque tudo é tão incerto nessa doença. A Prefeitura poderia ajudar na questão do alvará, vigilância, bombeiro, dedetização, taxas de impostos. Na minha escola, por exemplo, toda essa documentação tá vencendo em agosto, não sei de onde vou tirar dinheiro para renovar tudo. Temos condições de atender melhor as crianças em salas de aula, ter mais profissionais, mais higiene do que uma escola pública, e eles estão colocando tudo no mesmo patamar. Isso precisa mudar”.

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