Segundo um levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, no ano de 2018, 55,8% da população Brasileira é composta por negros e pardos. Já no Paraná, conforme mostra a pesquisa, este percentual é de 33,4%. Com relação ao mercado de trabalho, 68,6% dos cargos gerenciais são ocupados por brancos, sendo apenas 29,9% ocupados por negros e pardos. Quanto à distribuição de renda, apenas 15,4% da população composta por brancos ganha menos de U$ 5,50 (R$ 27,50) ao dia, contra 32,9% de negros e pardos que recebem este mesmo valor. Já os que recebem menos de U$ 1,90 (R$ 9,50) ao dia são 3,6% formados por brancos e 8,8% de negros e pardos.

Quanto o assunto é violência, a taxa de homicídios a cada 100 mil jovens (15 a 29 anos) é ainda mais preocupante, sendo 98,5 formada por negros e pardos e 34 por brancos. É por isso que casos como o do afro-americano George Floyd, morto por um policial branco, que se ajoelhou sobre seu pescoço, e o matou por asfixia, causam tanta revolta. Duas semanas após o crime, que ganhou um viés racial, os protestos ainda percorrem o mundo. E não é preciso ir muito longe para ver que aqui em Araucária o racismo também existe. A morte do negro americano também fez com que os representantes locais da raça negra, expusessem suas mágoas mais profundas sobre as relações raciais na cidade e os tristes fatos de preconceito que já enfrentaram.

O Jornal O Popular conversou com alguns representantes da comunidade negra e constatou a unanimidade entre eles sobre a necessidade de políticas públicas de combate ao racismo e a importância de conscientizar a população de que somos todos iguais, independentemente da cor, do modo de pensar, da sexualidade, do tamanho, do cabelo, da casa, independente de tudo. Acompanhe os depoimentos.

Texto: Maurenn Bernardo

“A cor da pele não te torna diferente dos demais

Racismo deixou marcas profundas

Janete Martins,
confeiteira

Há três anos tive uma experiência muito triste com o racismo, que deixou marcas que vou levar pra minha vida inteira, marcas essas que não só afetaram, como também o meu esposo e filhos. Até hoje preciso de acompanhamento terapêutico. Se me perguntarem se ainda sofro racismo, responderei que sim! Não tão intenso como aquele, mas às vezes, em alguns estabelecimentos, são nítidos e perceptíveis os olhares. Penso que o município de Araucária deveria investir em políticas públicas, tais como cursos profissionalizantes nas periferias, política de cotas para estágio nos órgãos públicos, ensino das religiões de matrizes africanas com o material didático produzido por pessoas que exerçam essa fé. E que impreterivelmente seja instituído o Feriado da Consciência Negra.

A população negra chora

Celina do Carmo da Silva Wotcoski, agente
educacional

A população negra mundial chora ao assistir a crueldade contra George Floyd. Nos Estados Unidos teve uma repercussão muito grande, mas nós sabemos que ao nosso lado, muitas vezes, nossos jovens sofrem barbáries como essas. Estamos em pleno século 21 e eu, Celina, quero dizer que sou uma mulher negra, que já passei por muitas e muitas situações de racismo, que não chegaram ao extremo de me matar, mas feriram profundamente a minha alma. Feriu porque, segundo a constituição, todos somos iguais perante a lei, então por que teve que ser acrescida uma outra lei para proteger a pessoa negra? Eu acredito que dentro da nossa sociedade nós devemos acolher a todos, ouvir a todos e tirar proveito de tudo aquilo que há de bom, aprender um com os outros e não deixar que a cor da pele, a posição social, diferencie um do outro. Temos que dar as mãos e pensar que a alma não tem cor e, acima de tudo, precisamos ter representantes que lutem verdadeiramente contra o racismo.

O combate ao racismo se tornou muito difícil

Sidney Azarias Inácio, professor

Racismo existe quando uma raça se coloca como superior a outra. E infelizmente isso acontece muito no mundo, e também aqui no Brasil. Muito branco entende que pertence a uma raça diferente, superior, e relega ao negro a periferia da vida. Acontecimentos antigos e também recentes comprovam isto. Tem negros que recebem tratamento mais agressivo que cachorros, gatos, cavalos, por exemplo. Aqui o racismo é velado, mas é ensinado com muita competência para as crianças em suas casas, nas escolas, no comércio, nos esportes, na televisão. O racismo aqui é a educação que deu certo. Mas ele tem potencial para ir muito mais longe, pois hoje conta com ajuda presidencial explícita. Um presidente que não reconhece a escravidão, que mede peso de negro em arroba, como animais, está contribuindo para um racismo cada vez mais forte. O combate que não estava fácil se tornou muito difícil.

Eu não consigo respirar

Jester Furtado, professor

George Floyd verbalizou novamente o que tem sido a última frase de muitos negros e negras. No Brasil a única diferença é a passividade da sociedade que não se levanta para combater os crimes raciais, pior que isso, fazem coro para criticar as frágeis ações de combate, que emergem em meio a tanta dificuldade. Há apenas alguns dias o menino João Pedro foi assassinado por policiais dentro da sua própria casa no Rio de Janeiro, por volta de um ano o exército disparou 80 tiros em um músico negro que estava com a família, eu mesmo ainda quando universitário, fiquei detido durante um dia todo por acusação infundada e preconceituosa, não saí por falar a verdade nem sequer por ser ouvido, mas apenas porque tive o privilégio de ter um amigo advogado com pertencimento étnico inquestionável, se não fosse isso eu poderia ter ficado por lá uma semana, um mês ou quem sabe durante anos, engrossando a negra massa carcerária, mesmo sem ter cometido crime algum.

O Brasil foi o último país a abolir a escravatura e o fez sem nenhum tipo de reparação. A cada 23 minutos temos um jovem negro sendo assassinado, alguns não nem tem mãe para chorar sua morte. Mas ainda assim, somos acusados de vitimização, é compreensível, afinal não há argumento para contestar os dados e os fatos. Araucária não está isenta dessa realidade, por isso a importância de políticas de promoção de igualdade racial acontecerem de fato e não só no discurso, afinal todos nós precisamos respirar.

Vidas negras importam

Paulo Antônio dos
Santos, professor
aposentado

Ao nos depararmos com mais um caso de truculência homicida por parte da polícia americana, como no caso de George Floyd, que embora imobilizado e suplicando pelo direito de respirar, foi assassinado brutalmente por um policial branco, avaliamos que o comportamento de uma autoridade branca com relação a um cidadão negro, é recorrente em muitas partes do mundo. São muitos os casos registrados nos E.U.A., que se transformaram em comoção pública local e até mundial. Os negros clamam por respeito aos direitos civis e de políticas públicas de inserção deles nas flexibilizações de acesso. Somos hoje, 55% da população brasileira, mas sofremos de um processo de invisibilidade social. Acreditamos que através da educação, a população negra busca o caminho mais curto para conquistar aquele espaço que também lhe é de direito. No caso de Araucária, através do COMPIR – Conselho Municipal para Promoção da Igualdade Racial, buscamos através de projetos, implementar estas políticas públicas para pesquisar a verdadeira realidade das condições de vida da população negra. Melhor seria se ao invés de protestos com embates violentos nas ruas, fossem substituídos por debates em mesas de negociações com resultados satisfatórios para todas as partes. Somos mais humanos quando conseguimos tratar com respeito as nossas diferenças.

Não importa a cor da pele, somos todos iguais

Raquel Ferreira,
publicitária

Mesmo sendo negra, conquistei o título de Princesa do Comércio de Araucária. Concorri com tantas loiras, brancas, mas é claro que sofri racismo durante todo o concurso, e até mesmo no dia da revelação. Já enfrentei várias outras situações de preconceito, em filas de restaurantes e outros locais públicos, mas sem dúvida, a pior de todas aconteceu no passado, em uma loja aqui da cidade, quando fui trocar uma peça de roupa e suspeitaram que eu poderia estar tentando roubar. Foi humilhante ver as funcionárias e a gerente me apontando o dedo, me chamando de ‘nega do cabelo duro’, de que conheciam ‘tipinhos’ como eu. Triste demais pra mim, entrei em depressão, tomei remédios tarja preta, fui ao psicólogo e também ao psiquiatra. Mas graças a Deus me levantei, voltei para a corrida e aos poucos fui deixando aquele episódio para trás. Hoje tenho marcas, mas sei lidar com elas. Vejo nos cenários de preconceito como este recente, dos Estados Unidos, a necessidade urgente de campanhas, ações, ou mesmo um plano educacional, porque a conscientização tem que começar ainda na escola, sendo que as crianças caucasianas precisam aprender que somos todos iguais, independente da cor da pele. Esse papel de educar os filhos contra o preconceito racial é dos próprios pais, mas infelizmente, não estamos vendo isso acontecer. O próprio adulto, que de repente tenha tido o preconceito incutido na sua mente desde cedo, também precisa mudar.

Publicado na edição 1415 – 04/06/2020