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Renuncie a si mesmo

Talvez uma das coisas mais difíceis na vida do ser humano é deixar de pensar em si mesmo em primeiro lugar, para pensar no outro. Por natureza, somos muito impulsionados ao egoísmo, individualismo e, em muitos casos, ao narcisismo. O narcisista se acha o máximo, acima dos outros, e por onde passa, quer ser a estrela do espetáculo. Quando é deixado de lado, se sente humilhado, e se coloca numa atitude de vítima. Gosta de se aparecer, e ser considerado superior aos outros, porque fala melhor, é mais inteligente, canta bem, enfim, encontra mil e uma razões para se julgar ‘o cara’. No fundo, são pessoas com baixa autoestima, que, constantemente, necessitam dos elogios externos, e fazem tudo para merecer lugar de destaque. São seres humanos mal elaborados, vazios por dentro, necessitados de uma contínua compensação externa.

Quando Jesus diz aos seus discípulos: ‘quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo’, não está, com certeza, pedindo que cada um se desvalorize e se coloque abaixo dos outros, num nível inferior. Muito pelo contrário, quando alguém é proativo, e está de bem consigo mesmo, não precisa do aval externo dos outros. E nem necessita fazer as coisas para se mostrar melhor que o outro e para ser visto e bem falado. Renunciar a si mesmo quer dizer exatamente isto: colocar a sua vida a serviço do outro, sobretudo, daquele mais sofrido e necessitado. Jesus, em diversas passagens vai ser bem claro: quem quiser salvar a sua vida sem mim, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim, vai ganhá-la.

Vivemos num mundo onde existe uma tendência forte a fazer as coisas por competição, para levar vantagem, pensando naquilo que lhe favorece, antes de tudo. É muito comum, diante de um convite para trabalhar em comunidade, a pessoa responder: e o que EU ganho com isso? Ou seja, acima de tudo, o meu bem, o meu ganho, a minha remuneração. Quem, pelo contrário, pensa em primeiro lugar no bem do outro, age de modo livre e gratuito. Fazer as coisas na gratuidade, é, com toda a certeza, a maior prova de amor a Jesus e, consequentemente, aos irmãos.

Jesus passou pela vida renunciando a si mesmo, pensando única e exclusivamente no bem do outro. Isso é tão verdade, que no momento derradeiro, quando estava prestes a ser preso, ele sentiu a dor do sofrimento e por instantes quis se afastar do perigo. Mas, movido por um forte amor aos irmãos, ele disse: ‘Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; mas que se faça a sua e não a minha vontade’. E a vontade de Deus foi determinante, e Jesus, aceitou dar a sua vida por amor a cada um de nós, pela nossa salvação.

Pensar que a vida só tem sentido quando somos capazes de satisfazer todos os nossos desejos pessoais, é um ledo engano. Ninguém se realiza plenamente voltado somente para si mesmo. O egoísmo, o individualismo, leva ao vazio, e o vazio pode levar a uma perda pelo sentido da vida. Porque, a vida só assume um colorido de profundidade, de realização, quando deixamos de pensar acima de tudo em nós mesmos, e colocamos os nossos dons, potencialidades, a serviço dos irmãos. Como dizia muito bem São Paulo: ‘existe muito mais alegria em dar do que em receber’. Oxalá os seres humanos tomassem consciência desta grande verdade, e vivessem voltados ao outro, pensando no seu bem. O bem que fazemos ao outro, volta em dobro para nós mesmos. Renunciar a si mesmo é no fundo entender e viver a máxima do evangelho: dar a vida pelos irmãos. O egoísmo destrói. Só amor constrói.

Publicado na edição 1169 – 27/06/2019

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