Uma das grandes tentações do ser humano é olhar para o cisco que está no olho do outro, e não perceber a trave que está no seu. É muito mais fácil apontar os erros dos outros, do que reconhecer as próprias falhas e buscar meios para superá-las. Quando não queremos mudar, quando resistimos à transformação, facilmente desviamos a atenção de nós mesmos, apontando os defeitos do outro. É uma forma defensiva de proteção pessoal, geralmente automática e inconsciente. Na verdade, nos conhecemos pouco, olhamos raramente para dentro de nós mesmos; geralmente voltados para fora, como juízes severos e implacáveis. Nós nos vestimos de uma couraça de perfeição, com atitudes moralistas, escondendo aquilo que realmente somos. Costumo dizer que por detrás de um grande moralista, sempre tem um grande safado. A melhor defesa de si mesmo é o ataque aos outros, nos protegendo e nos mantendo imunes aos nossos próprios defeitos.

A mudança que nós queremos no mundo deveria começar por nós mesmos. Cobramos tantas vezes, exigimos, criticamos, condenamos, destruímos, somos críticos e duros, mas esquecemos de fazer a nossa parte. Ou pior, não temos moral para falar dos outros, porque a nossa vida desdiz a coerência que nós queremos nos outros, haja visto que, falamos, mas não vivemos, exigimos mas não fazemos. Jesus questionou profundamente a incoerência dos fariseus que falavam bonito, mas não viviam o que pregavam. Aos discípulos ele chegou a dizer: façam o que eles dizem, mas não façam o que eles fazem, pois eles dizem uma coisa, mas fazem outra.

Voltar-se para dentro de si mesmo torna-se essencial, a fim de averiguar as suas incoerências, falsidades, hipocrisias, e colocar-se na atitude de mudança. Querer mudar torna-se imprescindível na eterna busca de uma vida mais íntegra e mais coerente. Na verdade, falamos muito mais com aquilo que não verbalizamos, mas com os nossos gestos e nossas ações. São elas que geralmente determinam e nos identificam naquilo que somos. Um gesto, um olhar, uma ação caritativa, podem fazer toda a diferença. Palavras podem ser apenas sons emitidos ao vento, sem nenhuma profundidade, pois se contradizem com as nossas ações e nossos gestos.

Jesus condenou a hipocrisia, ou seja, falar uma coisa e viver outra totalmente diferente. Para ele, o testemunho de vida é muito mais eficaz e determinante, do que uma enxurrada de palavras, de discursos, que são vazios de coerência e de verdade. Olhar para dentro de si mesmo e reconhecer-se pequeno, humilde, frágil e pecador, e colocar-se na dinâmica de uma contínua mudança, faz toda a diferença neste mundo. Quando alguém vive armado o tempo todo, em constante defesa de sua pessoa, tendo que enumerar os seus feitos com galhardia, demonstra um vazio interior muito grande. O testemunho de vida fala muito mais alto do que um caminhão de palavras vazias e sem coerência com suas ações.

Antes de olhar para o cisco que está no olho do outro, seria muito conveniente olhar a trava no seu olho e buscar meios para mudar de vida. Se cada um se colocasse aberto, humilde, com disposição interior para mudar, rever suas posições, admitir seus erros e suas falhas, com certeza, o mundo seria muito diferente. Se você prega e defende um mundo melhor, comece por você mesmo a mudança que você quer. Faça a diferença e assim, cada um fazendo a sua parte, faremos uma realidade melhor e um mundo mais humano e fraterno.

Publicado na edição 1152 – 28/02/2019

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