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Tá tudo zoneado!


Araucária é um município de pouco mais de 470 quilômetros quadrados. Deste total, míseros 84 quilômetros quadrados é área urbana. O resto é tudo área rural. Em termos de população, no entanto, algo em torno de 90% dos cidadãos está na área urbana e o restante na área rural.

Esta relação não é novidade nem aqui e nem na China. Em qualquer parte do mundo é assim. E é assim porque cada uma dessas zonas têm suas funções específicas. A do campo, como todos sabemos, é o desenvolvimento de atividades primárias, como agricultura, pecuária e outras. É por isso, aliás, que em termos de extensão ela é sempre muito superior a da área urbana.

Em Araucária, no entanto, não de hoje e exclusivamente por culpa da omissão do Poder Público e para atender a interesses desse ou daquele político e/ou empresário, o que temos visto é o uso inadequado de nossa área rural. Cada vez mais temos pessoas fazendo uso do campo apenas como moradia, o que é um desastre em termos de planejamento, de otimização de recursos públicos, entre outras coisas.

Dia desses, por exemplo, acompanhava a discussão acerca das péssimas condições estruturais de um centro municipal de educação infantil na região rural do Capinzal, que recebe diariamente sessenta crianças. Numa outra oportunidade, tivemos um ônibus do Triar atolado num rincão aí do Município e assim vai. Fiquemos nestes dois exemplos, por enquanto. Prezados, não há cabimento que num único Cmei de uma comunidade como Capinzal tenham sessenta crianças. É muita criança. E, o pior, fuçando um pouco mais esta história, descobri que existem outras sessenta famílias aguardando uma vaga para seus filhos neste mesmo Cmei. E a maioria dos pais desses pequenos precisam deixar seus rebentos na creche para poderem vir trabalhar na “cidade”. Do mesmo modo, verificando a história desses ônibus, sim porque aquele não foi o único a atolar na área rural por esses dias em que a chuva não tem perdoado Araucária, descobri que a maioria dos passageiros vinha para a área urbana para trabalhar.

Ambas as situações demonstram que estamos vendo uma urbanização desorganizada de nossa área rural. Muitas das famílias que ocupam a zona rural de Araucária hoje não vivem dela. Acabaram indo pra lá simplesmente porque encontraram um terreninho mais barato, já que a especulação imobiliária na área urbana de nosso Município é praticamente um caso de polícia. Muitos talvez ainda não tenham se dado conta da gravidade disso, porém o desequilíbrio na relação campo-cidade que isto ocasiona é temerário, principalmente para os cofres públicos. O custo da manutenção de uma escola ou Cmei no interior é infinitamente superior ao de uma na cidade. O mesmo vale no caso das linhas de ônibus, que em Araucária são pagas por quilômetro rodado. A despesa com um único itinerário do trajeto Rodoviária-Tietê, por exemplo, deve ser praticamente o mesmo de dez viagens do percurso feito pelo Santa Regina.

E não paramos por aí, temos ainda os custos com manutenção de estradas, com serviços de saúde. Só aqui em Araucária, por exemplo, temos praticamente a mesma quantidade de postinhos na área rural e na urbana. A diferença é que na primeira estão 10% da população e na segunda 90%.

Obviamente, não estou dizendo que precisamos desabastecer de serviços públicos o campo e sim que é urgente a necessidade de agirmos para que a área rural seja utilizada exclusivamente para aquilo que foi criada. Não dá mais para aceitarmos a favelização do interior. Isto mesmo: favelização! É isto que está acontecendo lá. Para tanto, nossos órgãos públicos não podem ser coniventes com o parcelamento irregular do solo rural. Devem ainda, urgentemente, estimular a ocupação dos vazios urbanos de Araucária, com a aplicação de instrumentos já previstos na legislação, como o IPTU progressivo, a função social da propriedade e assim por diante.

Da mesma fora, não devemos ainda aceitar que alguns políticos, de olho no votos dos incautos, incentivem essa ida dos mais carentes para morar no interior, sob a promessa de que depois ele dá um jeito de estender um pouco o trajeto da linha do ônibus, de ensaibrar a estrada que passa em frente a “propriedadezinha” do iludido ou que consegue um postinho para atender o sujeito.

Ou fazemos isso, ou Araucária vira – de vez – uma única zona, mas não no sentido literal da palavra. Comentários são bem vindos em www.opopularpr.com.br. Até semana que vem!

2 comments

  1. Isso é verdade, o interior está horrível, na questão do CMEI digo que quase metade não precisa, mas levam seus filhos pra poder se ver livres deles, tirando vagas de quem realmente precisa!!!
    E o pior, cada vez mais vai piorando, existem verdadeiras vilas lá e infelizmente ninguém tira a bunda da cadeira pra resolver a situação!

  2. Mas então não precisa de subprefeituras, não seriam necessárias. Os bairros tem subprefeituras? Favelização? O que precisa é a açao do governo nas areas onde se concentram populaçoes mais carentes para melhorar a qualidade de vida, exemplo vila do sossego. E outra pelo contrario, um municipio com uma area territorial tao imensa deveria ser realiazada ações para que pudesse fomentar ainda mais a economia do municipio e ser gerador de empregos. Essas pessoas pegando o gancho do cmei do capinzal ate onde sei a maioria sao de filhos de filhos de cidadãos que com seu trabalho na agricultura, dão emprego e nosso alimento na cidade. E obvio que com a industrializaçao e o avanço do tempo e a necessidade de trabalho e tambem a busca por uma melhor perspectiva de vida, busquem e possam trabalhar na cidade. Porque não podem continuar morando onde cresceram, formar suas familias ali. Sugiro que visite as comunidades, suas tradiçoes, seu valor. São quase quinze mil pessoas que contribuem igual a qualquer cidadão da area urbana.E sim, muita gente da area rural trabalha na area urbana. E sim muita gente de araucaria da area urbana trabalha em curitiba, vc por exemplo. E dai, tem que levar seus filhos para cmeis em curitiba?

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